China busca finalizar conexão ferroviária com a Mongólia após mais de uma década de esforços na fronteira do Deserto de Gobi
China e Mongólia avançam em corredor ferroviário para transporte de carvão e metais.
China e Mongólia estão trabalhando para resolver um dos desafios logísticos mais significativos da Ásia: o transporte de carvão e metais das minas mongóis para as siderúrgicas chinesas sem depender de longas filas de caminhões.
A solução proposta é a construção de um corredor ferroviário que ligará as minas de Tavan Tolgoi à rede ferroviária chinesa, com capacidade para transportar até 50 milhões de toneladas de carga anualmente, conforme anunciado pelo presidente da Mongólia.
O projeto, em discussão desde 2012, finalmente avançou após vários atrasos, com a primeira fase concluída e a segunda fase iniciada em 2025. Esta fase envolve uma ligação transfronteiriça de apenas 19,5 quilômetros no passo de Gashuunsukhait-Gantsmod, com previsão de conclusão para 2027.
O contraste entre a rapidez com que a China pode remodelar uma estação ferroviária e os 22 meses necessários para construir menos de 20 quilômetros na Mongólia ilustra os desafios técnicos e topográficos enfrentados na construção dessa infraestrutura.
Contexto
A Mongólia possui algumas das maiores reservas de carvão e cobre do mundo, destacando-se Tavan Tolgoi, uma das maiores reservas inexploradas de carvão coqueificável, com estimativas de 6,4 bilhões de toneladas. A mina de Oyu Tolgoi também é rica em cobre e ouro, com projeções de produção de 500 mil toneladas de cobre por ano até 2030.
Entretanto, a Mongólia não tem acesso ao mar e, historicamente, a China tem sido seu principal comprador de carvão, utilizando caminhões para o transporte através do deserto.
A transição para o transporte ferroviário é vista como uma solução mais eficiente do ponto de vista ambiental e econômico, embora a infraestrutura existente apresente limitações. A malha ferroviária mongol, com 1.815 quilômetros de trilhos de bitola soviética, é predominantemente de via única e vulnerável a condições climáticas adversas, como neve e areia do Deserto de Gobi.
Importância do projeto
A conclusão deste corredor ferroviário será crucial para a China, especialmente em um momento de pressão sobre o fornecimento de matérias-primas. A recente proibição ao carvão australiano obrigou o país a buscar novos suprimentos na Rússia e na Mongólia.
Além disso, a Mongólia se beneficiará de uma infraestrutura aprimorada, com a expectativa de que o volume médio de exportação aumente de 83 milhões para 165 milhões de toneladas por ano, resultando em um incremento significativo na receita. Contudo, isso também intensifica sua dependência da China, que já absorve 90% das exportações de matérias-primas da Mongólia.
Fase 1 da ferrovia
A história da ferrovia Tavan Tolgoi–Gashuun Sukhait é marcada por desafios. O projeto começou em 2012, mas enfrentou paralisações devido a problemas econômicos e políticos, como a escolha da bitola dos trilhos. Após uma nova gestão, as obras foram retomadas em 2018 e a linha foi finalmente inaugurada em 2022, estendendo-se por 233,6 quilômetros através do Deserto de Gobi.
O custo do carvão caiu drasticamente, de US$ 32 para US$ 8 por tonelada, conforme relatado pela Tavantolgoi Railway LLC.
Desafios da travessia da fronteira
A ferrovia chegou à fronteira em 2022, mas um desafio técnico persiste: a diferença nas bitolas. A Mongólia utiliza a bitola soviética de 1.520 mm, enquanto a China adota a bitola padrão internacional de 1.435 mm. Isso exige o transbordo de mercadorias, resultando em atrasos e custos adicionais.
A solução será uma linha de bitola dupla, que permitirá a integração dos sistemas ferroviários mongol e chinês, facilitando o transporte sem baldeações. Essa ligação transfronteiriça incluirá estruturas de pontes com alturas variando entre 8 e 31 metros para superar a diferença topográfica.
As obras estão sendo realizadas pela China Energy Investment Corporation do lado chinês e pela Tavantolgoi Railway LLC do lado mongol.
