Entre a floresta e a academia, a ayahuasca como um mundo visionário

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Antropólogo Luis Eduardo Luna revela a influência do vegetalismo na cultura psicodélica contemporânea.

Após retornar à Amazônia colombiana após anos na Europa, o antropólogo Luis Eduardo Luna teve sua trajetória transformada ao encontrar Terence McKenna em um bar em Florencia. Essa conexão, que durou cerca de dois meses, introduziu Luna ao universo da cultura psicodélica, do qual ele não tinha conhecimento prévio.

O encontro com McKenna, na década de 1970, iniciou um caminho que o tornaria uma referência no estudo do vegetalismo. Este conjunto de práticas tradicionais amazônicas é voltado para a cura e aprendizado, com a ayahuasca como elemento central. A bebida psicodélica, resultante da combinação de um cipó e folhas de um arbusto, é considerada uma “professora” nesse sistema de conhecimento.

Nascido em Florencia, Luna transitou entre uma formação acadêmica na Europa e o aprendizado com curandeiros da floresta. Ele foi pioneiro ao estabelecer o conceito de “plantas mestras”, documentando práticas que, anos depois, se tornaram populares globalmente no contexto da ayahuasca e dos psicodélicos.

Durante suas pesquisas, Luna se dedicou a entender o que os praticantes chamam de vegetalismo. Ele explica que esse sistema de conhecimento é baseado na relação com plantas que possuem espírito e sabedoria. “Eles se definiam como vegetalistas. Não diziam ‘xamã’ nem ‘pajé’”, destaca.

O vegetalismo é um caminho de conhecimento, onde curandeiros se especializam em plantas consideradas “professoras” por suas propriedades de induzir estados alterados de consciência ou por seu poder curativo. Luna observou que esse universo é profundamente híbrido, resultante da interação entre tradições indígenas e contextos regionais.

Em diferentes áreas, o conceito de vegetalismo aparece sob outras nomenclaturas. No Vale de Sibundoy, por exemplo, a expressão “jardim da ciência” designa o conjunto de plantas mestras com as quais se aprende, refletindo a mesma ideia de que as plantas são professoras.

A primeira experiência de Luna com o yagé, a ayahuasca na Colômbia, ocorreu durante seu retorno à Amazônia. Apesar de sua curiosidade inicial, ele passou por um longo processo de preparação. Ele relembra um período marcado por um grande entusiasmo, mas também confusão, influenciado por figuras como Carlos Castaneda e María Sabina.

Um conselho crucial de Gerardo Reichel-Dolmatoff, um renomado antropólogo, o orientou a estudar ciências para evitar se perder em suas investigações. Luna seguiu essa recomendação, estudando disciplinas como química e astronomia, o que lhe proporcionou uma sólida disciplina de pensamento.

O momento decisivo de sua jornada ocorreu em 1979, quando, após um período na Finlândia, decidiu explorar seu próprio continente. Ele traçou uma rota inspirada em Che Guevara, viajando de ônibus e trem pelo sul da América do Sul, até retornar à Colômbia.

De volta à Amazônia, reencontrou Apolinar, um curandeiro que o desafiou a passar 40 dias aprendendo sobre o yagé. Essa experiência, que revelava uma forma de conhecimento diferente, o levou a questionar os limites da educação convencional e a reconhecer a importância da sabedoria ameríndia.

O que as plantas ensinam

As descobertas de Luna culminaram em uma epistemologia que difere da separação entre sujeito e objeto. Enquanto o pensamento ocidental distingue claramente entre observador e objeto, o conhecimento ameríndio é baseado na identificação e na relação. Para conhecer um animal, por exemplo, o homem se transforma nele, refletindo-se na iconografia rica em seres híbridos.

O conceito de “plantas mestras” foi consolidado durante seu trabalho com o curandeiro Emilio Andrade Gómez, que lhe apresentou essa ideia. Até então, a literatura antropológica focava na relação entre xamanismo e animais, mas a conexão com as plantas não havia sido claramente formulada.

O trabalho de campo com Dom Emilio também definiu seu método. Com recursos limitados, Luna desenvolveu um processo minucioso inspirado no cinema etnográfico. Ele gravava à noite e transcrevia durante o dia, buscando o essencial em cada segundo de filme.

Esse material se tornou a base de sua tese de doutorado,

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