EUA desenvolvem estratégia para assegurar reservas de gálio ao extrair do lixo mineral para contornar restrições da China
O gálio: um metal estratégico na nova corrida tecnológica global.
No complexo cenário da tecnologia global, o poder é medido não apenas em linhas de código, mas na habilidade de dominar elementos químicos que antes eram ignorados. O gálio, um metal prateado e maleável, possui a peculiaridade de se liquefazer com o calor da palma da mão, revelando-se uma peça chave na defesa moderna.
Esse metal, ao contrário do silício, suporta voltagens extremas e resiste ao calor, tornando-se essencial para radares militares, satélites e sistemas de orientação de mísseis. Durante décadas, o mundo dependia de um único fornecedor, mas a complacência chegou ao fim. Os EUA e seus aliados agora buscam extrair o valor tecnológico dos resíduos industriais, especificamente do “barro vermelho”.
O mercado como arma de guerra
A crise atual na cadeia de suprimentos é uma estratégia de estado. A China, por anos, utilizou uma tática clássica de inundar o mercado com preços artificialmente baixos, sufocando tentativas de mineração no Ocidente. Com o controle de 99% do gálio refinado até 2025, Pequim começou a restringir as exportações.
Recentemente, a China impôs controles de exportação e um veto total aos envios para os EUA. Embora temporariamente suspensa, essa proibição causou um aumento significativo no preço do gálio fora da China, que triplicou, atingindo um recorde histórico. Para o Pentágono, a questão deixou de ser comercial e se tornou uma questão de segurança nacional.
O triângulo do gálio
Para contornar essa situação, Washington mudou seu foco das minas convencionais para as refinarias. A estratégia envolve um triângulo industrial começando na Austrália, onde a refinaria de Wagerup, em parceria com o Japão e os EUA, filtra o gálio diretamente da bauxita. O objetivo é atender 10% da demanda global sem abrir novas minas.
Esse esforço se estende até a Louisiana, onde a planta de Gramercy recebeu um investimento significativo do Pentágono para processar “barro vermelho”, um resíduo da produção de alumínio, que agora se tornou valioso. O projeto busca atender toda a demanda de gálio dos EUA. O triângulo se completa no Tennessee, onde a Korea Zinc investe bilhões para recuperar o metal estratégico dos resíduos do refino de zinco.
Um mercado blindado contra Pequim?
Apesar dos investimentos, o caminho está repleto de desafios econômicos. Especialistas alertam que o mercado do gálio é “perigosamente pequeno”. Um aumento rápido na produção ocidental pode levar a um colapso nos preços, tornando as novas plantas não rentáveis antes mesmo de começarem a operar.
Para mitigar esse risco, a Casa Branca criou uma rede de segurança financeira conhecida como Project Vault, uma reserva estratégica de 12 bilhões de dólares. Essa medida visa garantir a compra de minerais e proteger grandes empresas da volatilidade do mercado. A proposta inclui a criação de um “mercado âncora”, onde os aliados do G7 estabelecem cotas de compra para proteger a produção ocidental contra práticas desleais.
O futuro está sendo moldado átomo por átomo. Possuir a matéria-prima que impulsiona a tecnologia se tornou crucial. Entre o “barro vermelho” da Louisiana e as refinarias da Austrália, o Ocidente busca recuperar sua soberania tecnológica. Enquanto a China mantiver sua capacidade de controlar os preços, esses projetos dependerão do suporte estatal. A disputa pelo gálio é, em última análise, uma batalha pela supremacia no fornecimento de chips que moldarão o futuro.
