Falas de Lucas Caregnato acendem alerta político ao prefeito Adiló em meio a base frágil na Câmara
Vereador do PT critica tentativa de tensionamento com o Legislativo e sugere que confronto institucional pode ser caminho arriscado para o governo municipal
O pronunciamento do vereador Lucas Caregnato (PT), feito durante sessão recente da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul, trouxe à tona uma leitura política que vai além das críticas pontuais à gestão municipal. Em tom analítico e de advertência, o parlamentar apontou que o prefeito Adiló enfrenta um cenário de fragilidade política ao optar por tensionar a relação com o Legislativo em meio a uma cidade marcada por problemas estruturais graves, especialmente nas áreas da saúde e da educação.
Caregnato iniciou sua fala contextualizando o ambiente administrativo da cidade, destacando as dificuldades enfrentadas pelas UPAs, que seguem sob gestão terceirizada. Segundo o vereador, profissionais da saúde continuam relatando problemas operacionais e inconsistências no pagamento de salários, mesmo após esforços da Secretaria Municipal da Saúde para encontrar soluções provisórias. Ele ressaltou que, atualmente, parte significativa da política pública de saúde tem sido sustentada por emendas parlamentares, inclusive para custeio de cirurgias, consultas especializadas e exames — despesas que, em tese, deveriam ser cobertas com recursos próprios do município.
Na educação, o cenário descrito também é de apreensão. O parlamentar alertou para o início do ano letivo nas séries finais do ensino fundamental e para a tendência de aumento nas reclamações de famílias, em razão de matrículas distantes das residências, ausência de transporte escolar adequado e falta de linhas de ônibus. Somam-se a isso dificuldades na substituição de médicos especialistas nas Unidades Básicas de Saúde durante períodos de férias, o que, segundo ele, amplia o sentimento de desorganização dos serviços públicos essenciais.
É nesse contexto que Caregnato faz a principal inflexão política do discurso. Para o vereador, causa preocupação o fato de o prefeito, diante de uma cidade com problemas complexos e de difícil solução, optar por confrontar o Poder Legislativo. Sem citar diretamente processos formais, o parlamentar relembrou que o último chefe do Executivo municipal que entrou em rota de colisão com a Câmara acabou cassado — episódio no qual o próprio Adiló, à época vereador, votou favoravelmente à cassação.
O vereador fez questão de afirmar que sua bancada não atua com lógica de “golpe” ou soluções artificiais. Pelo contrário, frisou que o PT votou contra todos os pedidos de impeachment apresentados até agora contra o atual prefeito, por entender que há responsabilidade institucional envolvida. Ainda assim, deixou claro que a construção política exige cautela, especialmente quando o governo opera com uma maioria estreita e instável.
Na avaliação de Caregnato, ao criar narrativas que transferem à Câmara a responsabilidade por eventuais aumentos de impostos — como ocorreu após declarações do Executivo relacionando a derrubada de vetos a impactos no IPTU — o prefeito corre o risco de estimular a população contra o Legislativo, estratégia que classificou como perigosa. Segundo ele, votações relevantes exigirão, inevitavelmente, diálogo e construção de maioria também com a oposição, já que a base governista, em momentos decisivos, demonstra sinais de fragmentação.
O discurso também lança luz sobre o atual desenho político da Câmara. Caxias do Sul conta hoje com um Legislativo dividido entre blocos ideológicos bem definidos e um centro político volátil. Cinco vereadores do PL, embora situados à direita, não integram automaticamente a base do governo. Outros cinco parlamentares vinculados à esquerda, entre PT e PCdoB, fazem oposição declarada. Entre esses polos, há um grupo de centro cuja posição varia conforme o tema, incluindo vereadores que já se declararam independentes ou neutros, o que amplia a imprevisibilidade do cenário.
Ao final, Caregnato deixou um recado direto ao chefe do Executivo: governar exige priorizar a resolução dos problemas concretos da cidade e reduzir o foco em disputas políticas paralelas. Segundo ele, insistir em embates institucionais, especialmente sem maioria sólida, pode se revelar uma escolha arriscada para quem precisa conduzir votações estratégicas e manter estabilidade política.
A fala não anuncia rupturas formais, mas funciona como um sinal de alerta. Em um ambiente de desgaste administrativo, pressão popular e base legislativa frágil, o recado implícito é claro: o caminho do confronto pode cobrar um preço político alto no futuro próximo.
Foto: Divulgação/Redes Sociais/ Vereador Lucas Caregnato
