Filhos de Bolsonaro se afastam de Michelle na corrida pela sucessão
Tensões familiares e políticas marcam articulações em torno de Jair Bolsonaro.
A movimentação de Michelle Bolsonaro junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) em defesa do pedido de prisão domiciliar para Jair Bolsonaro intensificou as tensões familiares e reacendeu a disputa pela sucessão política nas eleições deste ano.
Interlocutores indicam que a ex-primeira-dama vê na possibilidade de Bolsonaro deixar o regime prisional uma chance de reavivar o debate eleitoral, atualmente dominado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e reintroduzir o nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como uma alternativa viável.
O clima de atrito se agravou após a transferência de Bolsonaro para a Papudinha. Durante esse período, Tarcísio cancelou uma visita ao ex-presidente, enquanto Michelle ampliava suas conversas com os ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, do STF. O movimento da ex-primeira-dama passou a ser visto por aliados dos filhos de Bolsonaro como uma tentativa de se posicionar como “porta-voz institucional” do bolsonarismo, fortalecendo sua influência política.
A estratégia junto ao STF é considerada gradual pelos aliados. Inicialmente, a defesa busca melhorias nas condições da prisão e, em seguida, argumenta a necessidade da prisão domiciliar com base em questões de saúde. Um novo pedido já foi apresentado e está sob análise de Alexandre de Moraes, que aguarda informações da Polícia Federal sobre a perícia médica antes de tomar uma decisão.
Entretanto, essa articulação é percebida dentro da família como algo que vai além da questão humanitária, impactando diretamente o cenário eleitoral. Aliados dos filhos de Bolsonaro acreditam que o objetivo é não apenas aliviar a situação de Jair, mas também reorganizar o campo da direita visando as eleições de 2026. Pessoas próximas ao ex-presidente relatam que Michelle defende que Flávio se posicionou como herdeiro natural do bolsonarismo, aproveitando o isolamento do pai, o que abre espaço para uma disputa pela sucessão.
A possibilidade de Bolsonaro retornar ao convívio doméstico poderia ampliar a influência de Michelle, permitindo que ela trabalhasse para viabilizar Tarcísio como um nome competitivo, cogitando até mesmo uma chapa com ela como vice. O nome do governador voltou a ser discutido na mesma semana em que ele cancelou a visita à Papudinha, embora oficialmente o motivo tenha sido compromissos em São Paulo, onde na verdade ele cumpriu apenas despachos internos no Palácio dos Bandeirantes.
Interlocutores afirmam que Tarcísio tenta evitar qualquer definição sobre 2026 e se manter distante do conflito familiar. Ao ser questionado sobre uma possível candidatura, Tarcísio foi claro: “Sou candidato à reeleição”.
Após o episódio, uma nova visita ao ex-presidente foi agendada para a próxima quinta-feira, interpretada como uma tentativa de minimizar a percepção de distanciamento político.
A reação mais explícita às articulações de Michelle partiu de Carlos Bolsonaro. O ex-vereador visitou o pai e, em postagens nas redes sociais, expressou desconforto com as movimentações internas. Em uma delas, mencionou ações “de forma dissimulada” para medir forças com Jair. Em outra, sugeriu sabotagem ao projeto de Flávio, o que foi visto por aliados como um recado direto à madrasta. A assessoria de Carlos negou que Michelle fosse o alvo de suas críticas.
O desgaste aumentou quando os filhos souberam, apenas após a realização, da audiência de Michelle com Alexandre de Moraes, organizada pelo deputado Altineu Côrtes (PL-RJ).
A disputa não é nova. Um marco importante ocorreu em dezembro, quando Jair Bolsonaro divulgou uma carta manuscrita indicando Flávio como pré-candidato, documento que reforçou sua posição interna. Flávio afirma: “Michelle nunca me disse que quer ser candidata. Eu sou o pré-candidato indicado pelo presidente Bolsonaro. Tenho uma carta escrita e assinada por ele.”
Michelle, publicamente, evita confrontos diretos e já desejou sabedoria ao enteado. Aliados reforçam a indicação, mas reconhecem que mudanças podem ocorrer conforme o cenário político. Marco Feliciano resume: “Seguimos as ordens do nosso capitão Bolsonaro. Ele disse que é Flávio, então é Flávio. Se houver outra ordem posteriormente, a seguiremos também.”
Nos bastidores, duas rotas estão em disputa: a candidatura de Flávio, baseada na herança
