Governo federal cede à pressão do lobby nuclear
Situação crítica do setor nuclear brasileiro levanta preocupações sobre Angra 3.
A situação do setor nuclear no Brasil é alarmante, com a Eletrobrás Termonuclear S.A. (Eletronuclear) enfrentando riscos sérios de insolvência técnica. A empresa depende fortemente de aportes da União e corre o risco de paralisar projetos fundamentais.
As raízes do problema estão ligadas a administrações irresponsáveis, conforme evidenciado por uma auditoria realizada pelo Tribunal de Contas da União. Essa auditoria investigou o contrato de execução das obras civis da usina Angra 3 e revelou irregularidades significativas, incluindo superfaturamento e gestão fraudulenta.
Além disso, os responsáveis pelo setor nuclear estiveram envolvidos em práticas questionáveis e fazem parte de um grupo de servidores públicos que recebem salários exorbitantes. O endividamento da Eletronuclear é atribuído à paralisação das obras de Angra 3, que começaram em 1984, acumulando gastos anuais estimados em 1 bilhão de reais, a maior parte destinada a dívidas bancárias.
Recentemente, declarações em defesa da usina Angra 3 parecem fazer parte de uma estratégia para moldar a percepção pública sobre uma tecnologia considerada cara e arriscada. Os defensores afirmam que a usina é vital para a segurança energética do Brasil, enquanto ameaças de impactos negativos nas operações de Angra 1 e Angra 2 aumentam a pressão para a continuidade do projeto.
A decisão sobre o futuro da usina tem sido adiada, em parte devido à resistência de setores do governo federal que reconhecem os riscos envolvidos. A possibilidade de continuar com Angra 3 é questionada, especialmente considerando os enormes prejuízos já causados ao erário público.
Embora o Conselho Nacional de Política Energética tenha solicitado um estudo ao BNDES sobre a retomada das obras, a falta de transparência sobre o conteúdo desse estudo gera desconfiança. Informações parciais indicam que a conclusão das obras seria mais vantajosa economicamente do que a desativação, mas a ausência de dados completos levanta dúvidas.
A pressão por uma decisão favorável à retomada das obras é apoiada por figuras influentes, incluindo o ministro de Minas e Energia, que defende a expansão da energia nuclear no Brasil. Este apoio se estende a aliados no Congresso e no setor militar, que veem potencial na energia atômica.
Defender Angra 3 e a expansão da energia nuclear é problemático, dado que os custos da eletricidade nuclear são significativamente mais altos do que os das fontes renováveis. Além disso, a falta de soluções seguras para o armazenamento de resíduos radioativos representa um dilema ético e técnico que afetará futuras gerações.
Com a iminente saída de ministros que se opõem à continuidade de Angra 3, surgem rumores de que a decisão já foi tomada, o que poderia abrir caminho para a construção de mais usinas nucleares no Brasil. Essa situação não apenas comprometeria o futuro energético do país, mas também ignoraria as consequências sociais e ambientais da energia nuclear.
Se o CNPE aprovar a retomada de Angra 3, o Brasil perderá uma oportunidade crucial de se afastar da energia nuclear e de suas consequências negativas. A proposta deve ser não apenas a interrupção do projeto de Angra 3, mas também a desativação das usinas Angra 1 e Angra 2, garantindo que o urânio permaneça onde pertence, sob a terra.
