Inovação na medicina: máquina é criada para ordenhar escorpiões e transformar tratamentos médicos
Pesquisadores desenvolvem robô para extração de veneno de escorpião, potencializando estudos contra o câncer.
A picada de escorpião é uma experiência dolorosa e perigosa, não apenas pela dor intensa, mas também pelos riscos à saúde decorrentes do veneno. Curiosamente, esse veneno contém substâncias naturais valiosas que podem ser utilizadas no combate ao câncer.
Com isso em mente, pesquisadores da Universidade Hassan II, no Marrocos, criaram um robô em 2017 que extrai o veneno de escorpiões de forma automatizada, segura e indolor para os animais. O equipamento, projetado para coletar pequenas gotas do veneno, representa uma solução inovadora para os desafios e custos associados ao processo de extração de toxinas naturais. Essa tecnologia pode acelerar a pesquisa sobre o uso do veneno de escorpião no desenvolvimento de novos tratamentos oncológicos.
Entenda como funciona a tecnologia que extrai o veneno de escorpiões
A extração do veneno de escorpiões já foi alvo de diversas pesquisas, mas o processo tradicional é arriscado e ineficiente. A coleta geralmente envolve estímulos mecânicos ou elétricos manuais, o que representa um perigo tanto para os pesquisadores quanto para os animais. Além do risco de acidentes, o método é demorado e caro.
O robô desenvolvido pela Universidade Hassan II revolucionou essa prática. Ele é capaz de acomodar até 35 escorpiões simultaneamente e utiliza descargas elétricas controladas e de baixa intensidade na cauda dos animais, estimulando a liberação de pequenas gotículas de veneno. Os pesquisadores asseguram que esse procedimento é indolor e não prejudica os aracnídeos.
As gotas de veneno são coletadas automaticamente em tubos de vidro através de um sistema vibratório e antenas internas, eliminando a necessidade de contato direto com a substância. O robô é leve e portátil, podendo ser utilizado em laboratórios e outros ambientes de pesquisa, necessitando apenas de treinamento básico para a manipulação dos escorpiões.
Líquido de ouro? Entenda por que o veneno de escorpião é tão raro, caro e disputado pela ciência
Conhecido como “líquido dourado”, o veneno de escorpião é uma das substâncias naturais mais caras do mundo. Um único grama pode custar cerca de US$ 8 mil, refletindo sua raridade e a dificuldade extrema de extração. Para produzir apenas um galão do veneno, seriam necessários mais de 2,6 milhões de escorpiões.
Esse alto custo não se deve apenas à escassez, mas também à complexidade do veneno, que contém uma mistura de peptídeos, neurotoxinas, enzimas e compostos bioativos com ações altamente específicas no organismo humano. Essa precisão molecular torna o veneno um foco de interesse para a ciência.
Além de pesquisas relacionadas à malária e doenças neurológicas, o interesse atual se concentra na oncologia. Estudos demonstraram que certos peptídeos presentes no veneno podem agir seletivamente sobre células tumorais, interferindo em canais iônicos e induzindo a morte celular programada, além de atravessar barreiras biológicas complexas, como a barreira hematoencefálica.
Do escorpião ao tratamento: como a ciência brasileira e a proteômica estão transformando veneno em esperança contra o câncer
Enquanto o robô facilita a coleta do veneno, o avanço das pesquisas depende da proteômica, uma área que estuda proteínas e peptídeos em detalhes. Pesquisas realizadas no Brasil têm mostrado resultados promissores. Em junho de 2025, cientistas da USP identificaram uma molécula no veneno do escorpião amazônico Brotheas amazonicus que pode matar células de câncer de mama com eficácia comparável à de quimioterápicos.
Embora a tecnologia do robô seja crucial para a coleta segura e eficiente do veneno, os cientistas não dependem da extração contínua dos escorpiões para desenvolver medicamentos. Após a identificação dos peptídeos com potencial anticancerígeno, os pesquisadores utilizam técnicas de clonagem genética para reproduzir os genes responsáveis por essas moléculas em laboratório. Esse processo possibilita a produção das toxinas em escala, com maior controle, estabilidade e segurança.
