Médico abandona jaleco e se dedica a mapeamento de onças no Cerrado goiano
Médico troca a medicina pela fotografia da vida selvagem em Goiás.
Médico urologista, Leandro Carvalho Vitorino, de 45 anos, dedica seus dias de folga à monitorização da vida selvagem na Serra dos Pireneus, uma região rica em biodiversidade localizada entre Pirenópolis, Corumbá de Goiás e Cocalzinho de Goiás.
Desde 2009, Leandro começou a registrar a flora e fauna local, utilizando técnicas de fotografia subaquática e observando pegadas de animais, incluindo as da onça-pintada. Em 2017, ele instalou armadilhas fotográficas e, até o momento, registrou 37 indivíduos dessa espécie, incluindo filhotes. Ele destaca que, apesar de ser uma população saudável, as onças enfrentam conflitos com humanos, refletindo um problema global para os grandes felinos.
Nos últimos nove anos, Leandro tem acompanhado as onças em seu habitat natural, revelando informações valiosas sobre seu comportamento e adaptação à presença humana. As onças, segundo ele, são extremamente tímidas e utilizam tanto áreas preservadas quanto propriedades privadas para se locomover.
O monitoramento também demonstrou a relevância da Serra dos Pireneus como um corredor ecológico, conectando populações de onça-pintada a outras regiões, como o Planalto Central e o Vale do Araguaia. Registros de armadilhas fotográficas capturaram espécies raras, como o tatu-canastra e o cachorro-vinagre, ambos ameaçados de extinção.
Adaptação das onças
As descobertas ao longo dos anos alteraram a percepção de Leandro sobre o comportamento das onças, que têm mostrado uma notável capacidade de adaptação ao convívio com humanos. O médico observa que elas evitam o contato e utilizam áreas diversas para se deslocar.
A Serra dos Pireneus se destaca como um corredor ecológico vital, facilitando a movimentação das onças entre diferentes populações. Um dos indivíduos monitorados foi registrado em um local distante, demonstrando a importância da região para a conservação da espécie.
Do hobby à pesquisa
A paixão de Leandro pela natureza começou na infância, mas foi na faculdade de medicina que ele adquiriu suas primeiras câmeras, iniciando sua jornada na fotografia. Seu envolvimento com a comunidade rural, através de trabalho voluntário, permitiu que ele explorasse a região e se conectasse ainda mais com a fauna local.
Em 2019, criou a página Bichos dos Pireneus nas redes sociais, onde compartilha suas fotografias, atraindo a atenção de especialistas e formando parcerias com pesquisadores. Atualmente, ele colabora em projetos de levantamento de fauna no Parque Estadual dos Pireneus, sempre com a orientação de instituições ambientais.
Métodos de registro de imagens
Leandro utiliza diversas metodologias para registrar a fauna, incluindo armadilhas fotográficas e identificação de pegadas e fezes. Seu trabalho também é um canal de educação ambiental, buscando sensibilizar a sociedade sobre a importância da conservação da natureza.
Além das expedições, ele está desenvolvendo um projeto de livro com mais de 300 páginas sobre a vida selvagem da Serra dos Pireneus, embora a produção ainda dependa de recursos financeiros.
Onças são “termômetro ambiental”
A presença da onça-pintada na Serra dos Pireneus é vista por Leandro como um indicativo da saúde ambiental da região. Essas grandes felinas, que ocupam o topo da cadeia alimentar, necessitam de grandes áreas preservadas, refletindo a qualidade do ecossistema local.
Entretanto, as onças enfrentam diversas ameaças, como conflitos com criadores de gado e perda de habitat. Leandro enfatiza a necessidade de aumentar a conscientização sobre a importância da onça na manutenção do equilíbrio ecológico.
“Proteger a onça em seu habitat é garantir a proteção de toda a cadeia ecológica. Ela simboliza a biodiversidade brasileira e sua presença indica que o ecossistema está funcionando”, conclui.