Muito além do Sul: chimarrão conquista o mundo e movimenta mercados internacionais
Da tradição indígena sul-americana aos mercados internacionais, a erva-mate se consolida como símbolo cultural e produto estratégico da economia global
Tradicional símbolo da cultura gaúcha, o chimarrão — também conhecido como mate — ultrapassou há muito tempo as fronteiras do Rio Grande do Sul e hoje é consumido em diferentes continentes, em contextos culturais variados e até em versões industrializadas. O que começou como um hábito ancestral dos povos indígenas da América do Sul tornou-se um produto global, com forte impacto econômico, social e cultural.
América do Sul: berço e coração do mate
A erva-mate tem origem na região sul da América do Sul, onde o consumo segue profundamente enraizado no cotidiano da população.
No Brasil, o chimarrão é presença marcante no Rio Grande do Sul, além de Santa Catarina e Paraná. Já nos estados do Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, predomina o tereré, versão fria da bebida, adaptada ao clima mais quente.
O Uruguai chama atenção por ser o país com maior consumo per capita do mundo. O mate faz parte da paisagem urbana: está nas ruas, nas praças, nos parques e até dentro dos ônibus, sempre acompanhado da tradicional térmica.
Na Argentina, o mate é considerado uma bebida nacional. O país é o maior consumidor absoluto de erva-mate no planeta, com presença quase obrigatória nos lares, no trabalho e em encontros familiares.
O Paraguai mantém viva a tradição tanto do mate quente quanto do tereré, hábito compartilhado também em regiões da Bolívia e do Chile, reforçando o caráter regional da bebida.
Oriente Médio: onde o mate virou febre
Um dos capítulos mais curiosos da história da erva-mate está no Oriente Médio. A partir do século XIX, imigrantes sírios e libaneses que viveram na América do Sul retornaram aos seus países levando o hábito do mate.
A Síria é hoje um dos maiores importadores de erva-mate do mundo, especialmente da Argentina. O consumo é intenso e a bebida é considerada essencial em reuniões sociais, encontros familiares e celebrações.
No Líbano, o mate é especialmente popular entre a comunidade drusa. Diferentemente do costume sul-americano, é comum que cada pessoa utilize sua própria cuia e bomba, reforçando um ritual individual dentro do convívio coletivo.
Europa e novos mercados
Na Europa, o consumo de erva-mate cresce de forma consistente. A Alemanha, especialmente em cidades como Berlim, popularizou bebidas energéticas à base de extratos de erva-mate, como o conhecido Club-Mate, muito consumido entre jovens, estudantes e trabalhadores da área tecnológica.
A Polônia desponta como um dos maiores mercados europeus emergentes, com aumento significativo da importação da erva, impulsionado pelo interesse em produtos naturais e funcionais.
Além disso, o mate também avança em países como França, Espanha, Estados Unidos, Canadá e Japão, geralmente associado a hábitos saudáveis, energia natural e bem-estar.
Principais produtores e exportadores
Os maiores produtores mundiais de erva-mate são:
- Argentina
- Brasil
- Paraguai
O Brasil se destaca tanto na produção quanto na exportação, especialmente a partir dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A Argentina lidera em exportações para o Oriente Médio, enquanto o Paraguai mantém forte presença regional.
Entre os principais importadores, estão:
- Síria
- Líbano
- Chile
- Estados Unidos
- Alemanha
- Polônia
Muito além da cuia: outros produtos à base de erva-mate
A erva-mate deixou de ser apenas matéria-prima do chimarrão e do tereré. Hoje, está presente em uma ampla gama de produtos:
- Chás industrializados
- Energéticos naturais e refrigerantes
- Cápsulas e extratos para suplementos alimentares
- Cosméticos, como shampoos, cremes e sabonetes
- Produtos farmacêuticos, devido às propriedades antioxidantes
- Alimentos funcionais, como barras de cereal e bebidas proteicas
Pesquisas científicas apontam benefícios como efeito estimulante, ação antioxidante, melhora da concentração e auxílio no metabolismo, o que amplia ainda mais o interesse global pela planta.
Tradição que se renova
Entre a roda de chimarrão nas praças do Sul do Brasil e as reuniões familiares no Oriente Médio, a erva-mate segue cumprindo seu papel ancestral: conectar pessoas. Ao mesmo tempo, consolida-se como um produto estratégico no mercado internacional, unindo tradição, identidade cultural e inovação.
O chimarrão, definitivamente, não é apenas uma bebida regional — é um patrimônio cultural que ganhou o mundo.
Foto: Divulgação/ Meghan Markle
