Pé de galinha se transforma em iguaria valorizada e se torna ‘negócio da China’ no Brasil
Pé de galinha se transforma em iguaria valorizada no Brasil, impulsionada pela demanda da China.
O pé de galinha, antes considerado um subproduto nas açougues brasileiros, ganhou destaque como uma iguaria apreciada, especialmente devido ao aumento da demanda por parte do mercado chinês.
A chef Jiang Pu, residente em São Paulo, relembra que, em 1998, o pé de galinha era frequentemente dado de graça nos açougues. Hoje, o preço desse produto pode chegar a R$ 14 por quilo, refletindo sua valorização na cultura alimentar de sua família.
No atacado, o preço médio do pé de galinha em 2026 foi de R$ 5,75, um aumento de 41,3% em relação a 2020, segundo dados de análises de mercado. Essa valorização é um reflexo da abertura comercial da China, que, desde 2009, passou a importar carne de frango do Brasil, transformando o que antes era considerado resíduo em um negócio lucrativo.
No ano passado, a indústria brasileira faturou impressionantes US$ 221 milhões com a exportação de pé de galinha para a China, que se tornou o principal comprador do produto. Este valor representa um crescimento de 9,5% em relação a 2024.
A China paga cerca de US$ 3 mil por tonelada do pé de galinha, um preço significativamente mais alto do que os US$ 2 mil pagos pela África do Sul, que também aumentou suas importações em 2025, quadruplicando o volume em comparação ao ano anterior.
Além das exportações, o aumento do preço do pé de galinha no Brasil também é impulsionado pelo crescimento da indústria de alimentos para animais de estimação, que utiliza o produto na fabricação de ração.
Pé de galinha como petisco na China
No mercado chinês, o pé de galinha é consumido como um petisco, semelhante ao amendoim no Brasil. Jiang explica que o consumo envolve o ato de chupar e roer o pé, tornando-o um lanche ideal para momentos de fome.
O produto é facilmente encontrado em lojas de rua e até em máquinas automáticas, geralmente vendido embalado e temperado. Durante reuniões familiares, é comum o uso do pé de galinha em saladas, servindo como entrada.
Na culinária chinesa, o pé de galinha também é utilizado para engrossar caldos, devido ao seu alto teor de colágeno, que confere uma textura gelatinosa às sopas.
Além da China, o pé de galinha é consumido em outras regiões asiáticas, como Vietnã e Coreia do Sul, embora em volumes menores em comparação ao mercado chinês.
A criatividade da cozinha sul-africana
No continente africano, o Brasil exporta pé de galinha para países como Libéria e Moçambique, mas a África do Sul se destaca como o principal mercado. Lá, o pé de galinha é um ingrediente chave em pratos como o “walkie-talkie”, que combina a cabeça e os pés do frango.
Na África do Sul, o pé de galinha é cozido e ensopado, apresentando uma textura diferente da crocante apreciada na China. Essa prática está ligada à história colonial do país, onde a população negra desenvolveu receitas criativas utilizando miúdos, devido à falta de acesso a cortes de carne mais nobres.
Os pratos são enriquecidos com especiarias como curry e gengibre, e frequentemente acompanhados de “pap”, uma polenta de milho. Essa abordagem de utilizar todas as partes do animal é uma prática comum em várias culturas, refletindo uma adaptação às dificuldades históricas de acesso a alimentos.
Assim, tanto na China quanto na África do Sul, o pé de galinha se tornou um símbolo de resistência e criatividade culinária, transformando um ingrediente subestimado em uma iguaria valorizada.
