Política industrial emerge a partir das demandas populares
Análise revela as chaves do sucesso da estratégia de desenvolvimento da China.
Nesta semana, uma análise editorial destacou os fatores que contribuíram para o sucesso da estratégia de desenvolvimento da China, apresentando uma visão diferenciada da que predominou no ocidente por décadas.
O editorial enfatiza que, ao contrário do que se pensava, os subsídios não são o principal motor da competitividade chinesa, especialmente no setor de veículos elétricos. Eles representam apenas 15% da vantagem de custo das empresas locais. O que realmente se destaca é a coordenação abrangente da política industrial, que combina planejamento central com intensa competição regional.
Essa reflexão se alinha a um movimento crescente entre economistas e formuladores de políticas que reavaliam a política industrial. Um relatório recente do Banco Mundial reinterpreta suas críticas anteriores, sugerindo que seus conselhos a países em desenvolvimento se tornaram obsoletos. O caso da China é frequentemente citado como um exemplo de sucesso na aplicação dessa política.
As publicações recentes mostram um entendimento mais profundo das raízes da estratégia de desenvolvimento da China. Explicações simplistas, que atribuíam a competitividade a salários baixos e subsídios, não são mais aceitas, mesmo entre economistas ortodoxos. Fatores como coordenação de investimentos, metas ambiciosas e políticas de transferência de tecnologia são agora amplamente reconhecidos como cruciais.
No entanto, um aspecto fundamental, conhecido como “conquistar a cidade a partir do campo”, não é abordado nas análises ocidentais. Essa metáfora, originada na Longa Marcha e defendida por Mao Zedong, sugere que o desenvolvimento deve ser moldado pelas especificidades chinesas, priorizando as necessidades da população nacional.
Essa abordagem implica o desenvolvimento de produtos manufatureiros adequados ao padrão de renda da população, evitando a replicação de estruturas produtivas dos países desenvolvidos. A China buscou construir capacidades produtivas a partir de mercados inicialmente negligenciados pelo capital internacional.
Um exemplo notável é a Huawei, que se concentrou no desenvolvimento de telecomunicações para áreas rurais, atraindo menos interesse de empresas estrangeiras. Essa lógica também se aplica ao sucesso dos veículos elétricos, como o Hongguang Mini EV, que vendeu mais de 2 milhões de unidades entre 2020 e 2025, adaptando tecnologia de ponta às condições locais.
Outros exemplos incluem scooters elétricas e baterias de fosfato de ferro-lítio, onde tecnologias inicialmente simples foram aprimoradas, transformando limitações locais em oportunidades de inovação e competitividade.
A experiência chinesa sugere que o desenvolvimento das forças produtivas, considerando as especificidades locais, é um caminho promissor para construir capacidades produtivas e tecnológicas. Essa lição, embora pouco compreendida no ocidente, pode ser valiosa para a política industrial brasileira.
Ao analisar segmentos de mercado que atendem às demandas locais, surgem diversos exemplos que ilustram esse potencial. A Totvs, por exemplo, lidera o mercado de softwares de gestão empresarial, desenvolvendo soluções para empresas de médio porte com uma compreensão mais profunda do mercado local.
Outros casos de sucesso incluem a Natura, que combina biodiversidade brasileira e acessibilidade, a NC / EMS, líder em genéricos, e a M. Dias Branco, que se destaca em marcas populares. Empresas do setor automotivo, como a Randoncorp, e a Dexco, que atua em construção, também exemplificam essa estratégia.
A lista de campeões nacionais e regionais é extensa, e a lição chinesa de “conquistar as cidades a partir do campo” pode ser um guia valioso para a política industrial do Brasil. Essa abordagem poderia ajudar a contornar as dificuldades impostas por multinacionais, ampliando a legitimidade da política industrial ao se basear em demandas concretas da população.
Essa estratégia também permitiria um maior enraizamento no mercado interno, controlado pelo capital nacional, fortalecendo a capacidade produtiva do país.
