Mudanças na NR-1 podem transformar a saúde mental nas empresas ou se tornar apenas mais um item de checklist
Brasil enfrenta aumento alarmante de afastamentos por transtornos mentais
O Brasil registrou, em 2025, mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, representando um crescimento de 79% em apenas dois anos, conforme dados do Ministério da Previdência Social. O número de casos de burnout, em particular, triplicou entre 2023 e 2025, passando de 1.760 para 6.985. Atualmente, o país ocupa a segunda posição no ranking mundial de esgotamento profissional, com 32% dos trabalhadores afetados.
Esse cenário crítico levou à atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entrou em vigor em 26 de maio. Essa norma amplia a fiscalização sobre a saúde mental no ambiente de trabalho, integrando riscos psicossociais, como sobrecarga de trabalho e ambientes de alta pressão, à gestão de segurança e saúde nas empresas. A saúde mental não pode mais ser tratada como uma pauta secundária ou um benefício opcional.
Uma questão pertinente para os profissionais de Recursos Humanos é se a NR-1 realmente promoverá mudanças significativas ou se se tornará apenas mais um item de conformidade. Durante anos, o ambiente corporativo operou sob a falsa premissa de que é possível separar a vida profissional da pessoal. No entanto, essa separação é não apenas artificial, mas também perigosa, como demonstram os dados crescentes de afastamentos.
A experiência pessoal de muitos profissionais evidencia que a quantidade de horas dedicadas ao trabalho impacta diretamente a presença em casa. O que acontece na vida pessoal reflete no trabalho e vice-versa, criando um ciclo de retroalimentação. A NR-1 não criou esse problema, mas tornou impossível ignorá-lo.
O paradoxo das empresas de tecnologia
O setor de tecnologia ilustra claramente essa tensão. É um ambiente que opera incessantemente, onde os profissionais estão constantemente conectados. A cultura do “sempre online” e a pressão para resolver problemas a qualquer hora tornam a separação entre vida pessoal e profissional quase inexistente.
Essas empresas são frequentemente vistas como referências em inovação e cultura organizacional, mas enfrentam um conflito estrutural quando se trata de saúde mental. O ritmo acelerado dos negócios muitas vezes contrasta com as necessidades humanas essenciais para um trabalho sustentável a longo prazo.
A NR-1 representa um convite, ou uma obrigação, dependendo da maturidade organizacional, para que as empresas enfrentem esse paradoxo. Além disso, as novas gerações que estão ingressando no mercado de trabalho não buscam apenas um equilíbrio entre vida e trabalho; elas desejam que ambos façam sentido juntos. Para esses profissionais, a questão não é “como desligar após o expediente”, mas “por que devo me dedicar a isso”. Se a resposta não for convincente, a saída se torna cada vez mais atraente.
As empresas de tecnologia devem estar cientes de que a atração e o engajamento de talentos em um mercado competitivo requer programas de saúde mental que atendam às expectativas das novas gerações. O cumprimento da NR-1 é necessário, mas não suficiente. Não existe política eficaz de saúde no trabalho que ignore a vida fora dele. Programas de bem-estar falharão se a cultura organizacional exigir que os profissionais se adaptem ao trabalho, e não o contrário.
Quando o RH aceitar que a fronteira entre vida pessoal e profissional não existe, a maneira de formular políticas mudará. As perguntas passam a ser direcionadas para as condições que estão sendo criadas para que as pessoas consigam trabalhar de forma sustentável ao longo do tempo. Essa mudança, embora sutil na formulação, é profunda na gestão.
A NR-1 pode ser o início de uma nova abordagem ou apenas mais um documento de conformidade. A escolha de cada organização sobre como lidar com essa norma será determinante para o futuro da saúde mental no trabalho.
