Rastreamento de remessa de livros com AirTag revela destino em instalação da Amazon para treinamento de IA
A crescente demanda por livros raros revela um novo mercado impulsionado pela inteligência artificial.
Nos últimos meses, livreiros têm percebido um aumento significativo nos pedidos de livros antigos, raros ou difíceis de encontrar. Inicialmente, essa demanda parece promissora, indicando um interesse renovado por esses exemplares, com compradores dispostos a adquirir volumes em quantidades nunca vistas antes.
No entanto, a natureza peculiar desses pedidos levantou questões sobre a identidade dos compradores. Muitos dos títulos solicitados não apresentavam relação aparente entre si, e os volumes pedidos eram consideravelmente altos, além de os compradores parecerem indiferentes ao preço. Isso gerou curiosidade sobre quem estaria por trás dessa demanda inusitada.
As investigações apontaram para um novo tipo de comprador: empresas de inteligência artificial que buscam textos para treinar seus modelos. Um vendedor, por exemplo, recebeu um pedido de cerca de 1.000 livros, mas o sistema de marketplace não permitia identificar quem estava comprando.
Para descobrir mais sobre o destino desses livros, um método inovador foi utilizado. Um livreiro recebeu um dispositivo rastreador, um Apple AirTag, que foi escondido em um dos volumes antes do envio. Isso permitiu acompanhar a rota da remessa.
O rastreador revelou que a carga percorreu milhares de quilômetros, começando na Califórnia e passando por várias localidades, incluindo um armazém logístico em Wisconsin, onde permaneceu por cerca de duas semanas. Em seguida, a remessa seguiu para o oeste, sendo rastreada em diferentes pontos até chegar a Las Vegas, onde parou em um armazém da Amazon.
Dentro desse complexo, uma operação específica foi identificada. Funcionários relataram que recebem os livros, registram seus códigos de barras e os preparam para digitalização. Parte do processo inclui a remoção da encadernação para facilitar a digitalização das páginas, resultando na destruição do exemplar físico após a conversão.
A Amazon não forneceu detalhes sobre quais sistemas utilizam os textos digitalizados, limitando-se a afirmar que adquire livros por meio de canais comerciais para desenvolver produtos e serviços. Embora a empresa tenha modelos proprietários, não está claro se os livros adquiridos são usados para treiná-los.
O interesse por esses volumes se justifica pelo conteúdo: muitos deles contêm textos que não estão facilmente disponíveis online e foram publicados antes da popularização da inteligência artificial generativa, tornando-os valiosos para o treinamento de modelos de IA.
Essas descobertas em Las Vegas estão alinhadas com práticas conhecidas, como as da empresa Anthropic, que adquiriu milhões de livros impressos para convertê-los em cópias digitais. A prática envolvia a destruição dos livros originais, mas foi considerada “uso aceitável” em um caso judicial específico.
A trajetória do AirTag revela um paradoxo interessante. Alguns dos livros da remessa eram raros e poderiam ter valor histórico ou sentimental, além do monetário. Contudo, na operação observada, o que realmente importava era o texto contido nos livros, que estava sendo adquirido para transformação em dados.
Assim, o que inicialmente parecia uma ótima oportunidade para os livreiros revelou-se um fenômeno onde os livros estão sendo comprados não apenas por seu valor físico, mas como fontes de dados para alimentar a inteligência artificial.
