Engenheiro desafia hierarquia em Bordeaux

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Yves Vatelot encerra carreira empresarial e se dedica à produção de vinhos em Bordeaux.

Após uma carreira notável, marcada pela criação do primeiro depilador eletrônico do mundo, Yves Vatelot decidiu se aposentar e se dedicar à sua paixão pelo vinho. Desde a adolescência, sua relação com a bebida começou em casa, onde, mesmo sem o pai apreciando, a mãe costumava degustar uma taça durante os almoços familiares. Era Vatelot quem, ainda jovem, escolhia os rótulos, tendo uma predileção pelos vinhos de Bordeaux.

No ano de 1990, seguindo a recomendação de um consultor, adquiriu o Château Reignac. Localizado em uma região menos renomada, o terroir do château se destacou por combinar cascalhos profundos de quartzo e solos argilo-calcários, ideais para as variedades Cabernet Sauvignon e Merlot.

Com uma abordagem empresarial, Vatelot implementou inovações na propriedade, que remonta ao século XVII. A colheita passou a ser manual, e os vinhedos receberam cuidados aprimorados. A antiga construção foi reformada, e um pombal do século XVI foi transformado em uma sala de degustação, equipada com um elevador de vinhos projetado por ele mesmo.

Essa modernização coincidiu com a formação de um júri europeu que avaliava vinhos periodicamente. Em 1998, Vatelot participou de uma degustação às cegas com 200 garrafas de Bordeaux, onde seu vinho surpreendeu ao ficar entre os 15 melhores. Recentemente, ele esteve no Brasil para um jantar que apresentou 20 safras de seus vinhos.

Após a divulgação dos resultados, críticos e produtores tradicionais manifestaram ceticismo, alegando que o vinho perderia qualidade com o tempo. Para comprovar a longevidade do seu produto, Vatelot inscreveu o rótulo em provas ao longo da década seguinte, alcançando até o quarto lugar em uma dessas competições. A virada aconteceu em 2009, com a safra de 2001.

Recebendo uma proposta desafiadora, Vatelot concordou em participar de uma degustação em Paris, desde que algumas condições fossem atendidas. O evento ocorreu em um renomado restaurante, onde jornalistas e sommeliers degustaram vinhos às cegas, comentando sobre suas impressões.

O resultado foi surpreendente: Reignac conquistou o segundo lugar, ficando atrás apenas do Château Angélus e superando rótulos renomados como Mouton, Haut Brion, Latour, Margaux e Lafite, com um preço significativamente mais acessível.

O château mantém a tradição de realizar degustações semanais às cegas, desafiando seus vinhos contra concorrentes da região. Além disso, a linha de produtos foi ampliada, incluindo o Balthus, um Merlot de vinhas velhas, além de um vinho branco e um rosé.

Vatelot observa que a região enfrenta novos desafios, especialmente com o modelo de comercialização “en primeur”, que está sendo questionado. Esse sistema, que permitia a venda de vinhos antes de estarem prontos, funcionou por anos, mas a mudança no perfil do consumidor e o aumento dos estoques alteraram essa dinâmica.

Buscando fortalecer as vendas diretas, Vatelot foi pioneiro ao vender sem intermediários para o mercado dos Estados Unidos. Em 2015, a propriedade implementou um sistema de vendas online, que hoje representa 20% da receita, utilizando degustações às cegas como estratégia de marketing.

Com a queda no consumo de vinho em países como França e Estados Unidos, novas opções surgiram das adegas do château. Entre elas, um rosé para consumo imediato e o R de Reignac, um vinho feito com Cabernet Franc, voltado para quem deseja uma experiência sem preocupações em relação ao tempo de guarda.

A profunda amizade e colaboração com o enólogo Michel Rolland se mantiveram até os últimos dias de sua vida. Vatelot e Rolland compartilharam um almoço em Paris poucos dias antes do falecimento do consultor, onde reafirmaram a crença de que a França continuará sendo o epicentro do mundo do vinho, graças à força de seu terroir. Por essa razão, Vatelot e sua esposa, Stéphanie, também promovem o enoturismo no château.

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