Brasil enfrenta dilema entre ser fornecedor ou comprador de inteligência artificial, afirma Pierre Lucena

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Porto Digital se destaca na formação de talentos em tecnologia e enfrenta desafios com a IA generativa.

Quando Pierre Lucena assumiu a presidência do Porto Digital no final de 2018, o foco não estava apenas na demanda por profissionais de tecnologia, mas na formação de talentos em quantidade suficiente para suprir essa necessidade. Ele destacou a falta de desenvolvedores no mercado global, um problema que persiste até os dias de hoje.

A estratégia adotada para enfrentar essa questão envolveu a ampliação da formação de mão de obra, com iniciativas que incluíram bolsas para estudantes de escolas públicas, cursos de graduação oferecidos no próprio Porto Digital e parcerias com universidades privadas. Como resultado, Recife passou a liderar a formação de profissionais em tecnologia, com 505 formados em 2019 e mais de 2 mil nos quatro anos seguintes. O número de novos alunos também cresceu, saltando de cerca de 600 para 1,4 mil anualmente.

Esse crescimento atraiu grandes empresas, aumentando o número de trabalhadores de 9 mil para 24 mil em seis anos, com um faturamento que passou de R$ 1,8 bilhão para R$ 7,2 bilhões. Lucena destacou que seis das dez maiores empresas de serviços do mundo estão agora baseadas no Porto Digital, incluindo Accenture, Deloitte e Capgemini, além da recente chegada de uma unidade de data center.

As operações dessas multinacionais vão além da simples presença no Brasil, envolvendo atividades de produção tecnológica e serviços especializados. A Deloitte, por exemplo, conta com mil funcionários no Porto Digital, onde realiza trabalhos de produção de SAP e atendimento a empresas, refletindo a necessidade de mão de obra qualificada.

O buraco que a IA pode abrir na base

Lucena expressou preocupação com a entrada contínua de novos profissionais no mercado, que pode ser ameaçada pelo avanço da inteligência artificial generativa. Embora reconheça os benefícios da tecnologia, ele questiona a possibilidade de eliminação de posições de entrada, ressaltando a importância dessas vagas para a formação de profissionais mais experientes.

Ele alertou que a redução na contratação de profissionais em início de carreira pode levar a um “buraco” no mercado de trabalho, resultando em desemprego e uma demanda excessiva por profissionais seniores. Lucena vê isso como uma falha de mercado que requer intervenção de políticas públicas.

Como solução, ele citou o modelo de Portugal, onde empresas que contratam recém-formados recebem subsídios salariais por dois anos, um incentivo que tem atraído empresas estrangeiras para o país.

Em resposta a esse novo cenário, o Porto Digital lançou o projeto NERD (Empreendedorismo e Residência Digital), que se organiza em 13 comitês setoriais, abordando áreas como cibersegurança e inteligência artificial. O objetivo é desenvolver negócios mais complexos e intensivos em conhecimento.

Lucena observou que o processo de criação de startups mudou. Hoje, é necessário mais capital e profissionais altamente qualificados para iniciar um negócio. Ele destacou que mais da metade dos 18 unicórnios brasileiros foi criada por empreendedores com experiência no mercado financeiro, e não apenas na tecnologia.

Exemplos como Nubank e Magalu demonstram como um conhecimento profundo de um setor pode ser a base para negócios tecnológicos. O NERD já atraiu empresas como Bradesco e Solar Coca-Cola, e deve receber também o Banco Inter.

Fornecedor ou comprador: a decisão que falta

Lucena acredita que o Brasil perdeu a chance de se estabelecer como um grande fornecedor de modelos de linguagem desenvolvidos localmente, mas vê uma oportunidade maior na aplicação da inteligência artificial. Ele enfatiza a necessidade de o país decidir se quer ser um fornecedor ou comprador dessa tecnologia.

Ele destacou o Pix como um exemplo do potencial brasileiro em desenvolver soluções que se tornam referência internacional. Um projeto de automação desenvolvido pelo Porto Digital para o Judiciário de Pernambuco também ilustra essa capacidade, buscando agora ganhar escala nacional.

O executivo valoriza a recente criação de um plano nacional de inteligência artificial, que envolve a colaboração do Congresso, do Judiciário e do Executivo, uma articulação rara na história recente do Brasil.

Lucena conclui que a adaptação ao novo cenário não será responsabilidade exclusiva de universidades, empresas ou governo, mas dependerá dos próprios usuários, que buscam mudanças práticas e convenientes.

Com 30 anos de experiência como professor de estatística e agora também focado em finanças, Lucena anunciará em novembro um livro sobre ecossistemas de inovação,

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