A ilusão da automação perfeita

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Descompasso entre tecnologia e qualificação no mercado de gestão de recursos

O mercado de gestão de recursos enfrenta um desafio significativo, caracterizado pela disparidade entre a rápida evolução tecnológica e a formação profissional das equipes de operações. A adoção de ferramentas de inteligência artificial está avançando rapidamente, enquanto a capacitação dos profissionais responsáveis pela validação e conferência de dados permanece estagnada.

Essa assimetria tem implicações diretas na segurança das operações corporativas, uma vez que a crescente sofisticação tecnológica demanda um padrão de qualidade operacional igualmente elevado. A falta de alinhamento entre a tecnologia disponível e a qualificação dos colaboradores pode comprometer a eficiência e a segurança das atividades diárias das gestoras.

Em conversas comerciais, frequentemente ouve-se a justificativa de clientes que reconhecem o valor dos sistemas, mas hesitam em sua adoção por não se sentirem preparados para aproveitar plenamente as ferramentas oferecidas. Além disso, muitas gestoras enfrentam longos períodos de implementação de sistemas devido à escassez de mão de obra qualificada, exacerbada pela alta rotatividade de pessoal.

Esse gargalo é agravado pela falta de certificações específicas para o backoffice das gestoras. Embora existam programas de qualificação operacional, como o da B3, voltados para áreas de compliance e gestão de portfólio, não há um equivalente que atenda às necessidades do backoffice, que é crucial para a operação de fundos.

As instituições de ensino e os cursos voltados para o mercado financeiro tendem a focar em áreas como análise e gestão de risco, deixando de lado as funções de middle e back office. Aqueles que acabam nessas áreas geralmente aprendem na prática, resultando em um conhecimento fragmentado e difícil de transferir entre diferentes gestoras.

A recente mudança na composição do mercado financeiro, com resgates significativos em fundos tradicionais e um crescimento expressivo em FIDCs, trouxe novas exigências operacionais. As equipes formadas para lidar com a lógica dos fundos de investimento ainda não estão totalmente preparadas para acompanhar essa transição.

O problema de escassez de talentos qualificados não é exclusivo do Brasil. Gestoras internacionais, como a Millennium Management, estão implementando programas de formação para mitigar a dificuldade em encontrar profissionais capacitados para alocar capital. A crescente demanda por gestores qualificados é um reflexo da necessidade de adaptação às novas realidades do mercado.

Os fundos de hedge, como Citadel e Point72, têm investido em programas de formação estruturados, criando trilhas de desenvolvimento que vão desde estágios até a posição de gestor de portfólio. No entanto, muitas gestoras brasileiras, especialmente as que operam com equipes menores, não têm a escala necessária para replicar esses modelos.

A falta de ação para resolver esse gargalo pode resultar em custos elevados, que se tornam evidentes quando problemas operacionais surgem. O conhecimento sobre os processos é frequentemente perdido com a saída de colaboradores, e a subutilização de sistemas de automação ocorre devido à falta de preparo das equipes para explorar todo o seu potencial.

O aumento da complexidade regulatória, como demonstrado pela Resolução CVM 175, exige uma segregação clara de responsabilidades que, sem a devida formação, pode elevar o risco operacional. A pressa em automatizar processos com inteligência artificial, sem a base sólida de conhecimento, pode levar a falhas significativas.

Estudos indicam que uma parte considerável das organizações pode desativar sistemas de IA devido a falhas de governança. No Brasil, uma porcentagem significativa de empresas utiliza IA, mas apenas uma fração mantém processos estruturados de teste e auditoria, o que agrava ainda mais a situação.

A experiência mostra que as gestoras que negligenciam a formação de suas equipes pagam um preço alto. A ausência de profissionais capacitados para operar e questionar as ferramentas disponíveis pode resultar em erros que impactam diretamente os investidores. A implementação de certificações bem estruturadas poderia ajudar a mitigar esses riscos e melhorar a qualidade das operações no mercado financeiro.

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