Empresas adotam ações como estratégia para atrair talentos ao compartilhar lucros e riscos
Transformações nas negociações salariais no Vale do Silício
A negociação salarial é um aspecto crucial no processo de contratação, com diferenças significativas na abordagem entre executivos e funcionários comuns. Tradicionalmente, os executivos costumam receber parte de sua remuneração em pacotes de ações ou benefícios, enquanto os demais colaboradores se limitam a um salário fixo mensal.
No entanto, um novo cenário está surgindo nas negociações salariais nas empresas do Vale do Silício. Cada vez mais, as organizações estão oferecendo aos seus colaboradores uma parte de suas ações, um benefício que antes era restrito a altos executivos e fundadores, mas que agora começa a ser incorporado na remuneração de equipes de vendas e atendimento ao cliente.
Expansão das opções de ações
Historicamente, as opções de compra de ações (stock options) eram privilégio exclusivo de CEOs e membros da alta administração. Os demais funcionários recebiam apenas salários em moeda corrente. Essa barreira está sendo desmantelada, conforme evidenciado por uma análise de 8.000 concessões em 480 empresas.
De acordo com a pesquisa, o número de equipes de vendas que recebem parte de sua remuneração em ações aumentou quase 30% desde 2025. As equipes de marketing também apresentaram um crescimento de 24% nesse mesmo período, enquanto os funcionários de Engenharia, tradicionalmente favorecidos, mostram sinais de estagnação.
Embora a maioria das empresas ainda não ofereça essa opção, 70% dos funcionários nas grandes empresas de tecnologia recebem parte de seus salários em ações, com uma concentração notável nas grandes corporações de capital aberto.
Atração das ações
A inflação tem corroído o poder de compra dos salários fixos há anos, gerando uma crescente insatisfação entre os trabalhadores. Quando os reajustes não superam a inflação, o valor real do salário diminui ano após ano.
As ações, por sua vez, oferecem uma alternativa atraente. Se a empresa prospera, o valor das ações pode aumentar significativamente. Essa forma de remuneração é vista como um risco, mas muitos colaboradores estão dispostos a aceitá-la para não ficarem para trás no mercado de trabalho.
“Isso está se tornando uma parte fundamental da remuneração, mas não substitui um salário”, afirma um economista especializado.
Funcionários de empresas como Nvidia e SpaceX exemplificam essa nova dinâmica.
Tendência de longo prazo
Um estudo recente revela que o número de trabalhadores nos EUA que possuem ações cresceu de 10 para 14 milhões entre os anos 2000 e 2025. A pesquisa aponta que a escassez de talentos qualificados leva as empresas a oferecer opções de ações como um incentivo para reter seus melhores profissionais.
Esse modelo de remuneração é utilizado para os altos executivos com a expectativa de que, ao impulsionarem o crescimento da empresa, eles também se beneficiem da valorização das ações. Nas empresas de capital aberto, as ações representam 71,6% da remuneração média dos CEOs.
Implicações fiscais
A tributação também desempenha um papel importante nesse novo arranjo de remuneração. Os impostos sobre a renda do trabalho costumam ser mais altos do que os aplicados sobre ganhos de capital, como a venda de ações. Assim, é mais vantajoso para os executivos receberem um salário base menor e um pacote significativo de ações.
Na Alemanha, por exemplo, houve uma reforma que aumentou a isenção fiscal sobre ações, ampliando o limite de 1.440 euros para 2.000 euros e estendendo o prazo antes da incidência de impostos sobre elas. O número de funcionários alemães que começaram a receber parte de sua remuneração em ações cresceu 62% entre 2025 e 2026.
No Reino Unido, o governo dobrou o limite de opções que cada empresa pode distribuir sob o plano EMI, ampliando as oportunidades para startups e incentivando a adoção de ações como parte da remuneração.