Brasil quase teve seu próprio Steve Jobs com criação de clone do Macintosh e ameaça de retaliação dos EUA
Inovação brasileira na tecnologia: a trajetória da Unitron e seu clone do Macintosh
A história da tecnologia no Brasil tem capítulos marcantes, especialmente no que diz respeito à tentativa de produzir tecnologia nacionalmente. Um dos episódios mais notáveis envolve a Unitron, que, sob a liderança de Geraldo Antunes, buscou desenvolver computadores que pudessem competir com os importados.
A Unitron foi fundada em 1974 em São Paulo, inicialmente focando na fabricação de equipamentos de iluminação. A virada para a computação ocorreu quando Antunes teve acesso a um Apple II, o que despertou seu interesse em replicar a tecnologia. Com uma equipe de engenheiros, ele iniciou um processo de engenharia reversa, resultando no Unitron AP II, um clone do Apple II que ajudou a empresa a se estabelecer no mercado nacional de computadores.
Com a reserva de mercado da informática, que limitava a entrada de produtos estrangeiros, a Unitron encontrou um ambiente propício para crescer. Em 1985, a empresa decidiu ir além e começou a desenvolver o Mac 512, um clone do Macintosh. Este computador possuía especificações semelhantes ao modelo da Apple, incluindo um processador Motorola 68000 e 512 KB de RAM. Protótipos foram apresentados em eventos, gerando expectativa no setor.
A ousadia da Unitron, no entanto, não passou despercebida. A Apple, incomodada com a iniciativa, contestou o projeto, que rapidamente se transformou em uma questão diplomática. Em 1987, o governo dos Estados Unidos intensificou a pressão sobre o Brasil, ameaçando impor barreiras comerciais a produtos brasileiros, enquanto a Apple buscava impedir a comercialização do computador nacional.
Internamente, a Unitron enfrentou desafios adicionais. Em dezembro de 1987, uma nova Lei de Software foi aprovada, e em março de 1988, a Secretaria Especial de Informática indeferiu o projeto do Mac 512, citando questões técnicas e a necessidade de aprovação final antes da comercialização. A pressão internacional foi um fator crucial que influenciou essa decisão.
A disputa também envolveu alegações sobre a legalidade do desenvolvimento do computador. Enquanto a Unitron defendia que havia utilizado engenharia reversa, a Apple argumentava que partes protegidas do Macintosh haviam sido copiadas. Com a impossibilidade de lançar o Mac 512 no mercado, a Unitron viu sua operação encolher e acabou abandonando suas ambições na área de informática, retornando ao foco inicial na fabricação de lâmpadas.