Consumo de carne de burro na Patagônia reflete a atualidade da Argentina

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Carne de burro ganha espaço na culinária argentina diante da alta da carne bovina.

A carne bovina argentina, reconhecida mundialmente por sua qualidade, enfrenta um novo concorrente: a carne de burro. Essa mudança surge em meio ao aumento significativo dos preços da carne bovina, que subiu 6,9% em março, superando a inflação mensal de 3,4%.

A carne de burro, tradicionalmente pouco consumida, começou a ser apreciada em Trelew, na Patagônia, através de um projeto inovador chamado “Burros Patagônicos”. A experiência inclui um açougue e um restaurante local, onde a carne de burro foi introduzida e rapidamente se tornou popular.

Julio Cittadini, o produtor rural responsável pela iniciativa, aguardou por dois anos a autorização das autoridades sanitárias para implementar o projeto. Após a aprovação, ele colaborou com um açougue e um restaurante, onde pratos como empanadas e linguiças feitas com carne de burro foram servidos e bem recebidos pelos clientes.

Carla Gutiérrez, proprietária do restaurante Don Pedro, relatou que a carne de burro é semelhante à bovina, mas com uma coloração mais escura e menos gordura. O sucesso da novidade foi tão grande que a carne se esgotou rapidamente no açougue.

Embora a carne de burro tenha atraído atenção, especialistas afirmam que seu consumo ainda é limitado e não impacta significativamente o mercado local. No entanto, a popularidade crescente reflete uma mudança nos hábitos dos consumidores, que buscam alternativas mais acessíveis devido à crise econômica.

Em Trelew, o quilo da carne de burro é vendido por cerca de 7.500 pesos, enquanto a carne bovina pode custar entre 18 mil e 19 mil pesos. Essa diferença de preço é um fator que contribui para o crescente interesse na carne de burro, especialmente em um contexto de recessão econômica.

Inflação e queda no consumo de carne bovina

A inflação na Argentina, que acumula um aumento de 9,4% no ano, tem pressionado o consumo. Os preços das carnes e derivados estão entre os que mais aumentaram nos últimos meses. Na Grande Buenos Aires, a carne registrou um aumento anual de 55%, levando a uma queda no consumo de carne bovina, que caiu cerca de 10% no primeiro trimestre deste ano.

Dados mostram que o consumo total de carnes na Argentina é de aproximadamente 115 a 116 quilos por pessoa ao ano, com uma queda acentuada no consumo de carne bovina, que atingiu o menor nível em duas décadas.

Projeto de carne de burro surge antes da crise

O projeto de Cittadini foi desenvolvido antes da atual crise econômica. Ele buscou alternativas devido às dificuldades enfrentadas pela pecuária na região, onde o clima rigoroso e a presença de predadores dificultam a criação de ovelhas e gado. O burro, por ser mais resistente, se mostrou uma opção viável.

Atualmente, Cittadini mantém cerca de 150 burros e planeja expandir seu rebanho. O Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar (Senasa) informou que não há registros de exportação de carne de burro, e seu consumo, embora não habitual, não é proibido.

Desafios econômicos e mudanças no consumo

A situação econômica da Argentina está mudando, afetando os setores de comércio e indústria. A inflação continua a ser uma grande preocupação, e o governo está sob pressão para conter a alta dos preços. O economista Ricardo Arriazu destaca que o país enfrenta uma nova dinâmica econômica, com setores como energia e agro aumentando as divisas, mas não gerando empregos suficientes.

Experiências como a de Trelew, que introduzem a carne de burro no mercado, refletem como as mudanças econômicas podem influenciar até mesmo hábitos alimentares profundamente enraizados na cultura argentina. O consumo de carne de burro, embora ainda restrito, pode se tornar uma alternativa viável em um cenário de crescente pressão econômica.

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