Alemanha desperta como potência militar e supera Estados Unidos em produção de munições anuais
A Europa está se rearmando e se tornando mais autossuficiente em defesa militar.
Durante a Guerra Fria, a Europa considerava seu papel na defesa industrial como secundário em relação aos Estados Unidos, que detinham a maior parte da produção de munições. O cenário, no entanto, está mudando drasticamente, com uma única empresa europeia capaz de produzir mais munições em um ano do que toda a indústria militar americana.
A mudança na política americana, especialmente durante a presidência de Trump, trouxe à tona a necessidade da Europa de reassumir sua defesa. Questões que antes pareciam irrelevantes agora são debatidas, como a capacidade do continente de se armar e se proteger sem a assistência dos EUA.
Analistas afirmam que a Europa pode, sim, se armar, mas isso implica desafios significativos. Para substituir o apoio militar americano, estima-se que seriam necessários cerca de um trilhão de dólares e anos de mudanças tanto industriais quanto estratégicas.
Recentemente, a indústria de defesa europeia experimentou um crescimento notável, impulsionado pela guerra na Ucrânia e pelo aumento dos gastos militares. Esta evolução marca o maior crescimento do setor desde a Guerra Fria, após décadas de subfinanciamento e fragmentação.
A produção de drones, munições, veículos blindados e sistemas terrestres aumentou consideravelmente, com novas empresas surgindo rapidamente e grandes grupos expandindo suas operações. O ambiente político e financeiro atual favorece esse rearmamento, que transforma a Europa em um ator industrial mais dinâmico, embora ainda haja disparidades entre os diferentes setores.
No ano passado, a Europa investiu cerca de 560 bilhões de dólares em defesa, o dobro do que há uma década. Este investimento está projetado para alcançar 80% do que os Estados Unidos gastam no Pentágono até 2035, um aumento significativo em relação aos 30% de 2019.
Essa transformação não apenas aproxima a autonomia operacional da Europa, mas também ameaça reduzir a participação das empresas americanas em um mercado que atualmente representa até 10% de suas receitas, sinalizando uma mudança gradual em direção a armamentos fabricados no próprio continente.
Algumas empresas europeias já superam os Estados Unidos em certos domínios. Por exemplo, a Rheinmetall está em vias de produzir mais munições de artilharia de 155 mm do que toda a indústria americana, enquanto a Europa se destaca na fabricação de carros de combate, navios e submarinos, que são exportados com sucesso globalmente.
O tanque Leopard e os estaleiros europeus, além do crescimento dos fabricantes de drones em países menores como a Estônia, demonstram uma base industrial robusta e cada vez mais competitiva.
Entretanto, a Europa ainda enfrenta déficits críticos que limitam sua independência real. A falta de caças furtivos próprios e a dependência dos Estados Unidos para inteligência satelital, defesa antimísseis e mísseis de longo alcance são exemplos dessas limitações.
Ainda há um vínculo com a manutenção e atualização de sistemas americanos, como o F-35 e o Patriot. Essas lacunas explicam por que muitos países europeus continuam a adquirir armamento fora do continente, mesmo ao afirmar a intenção de fortalecer sua autonomia estratégica.
Um dos principais obstáculos à autonomia europeia é a fragmentação política e industrial. Cada país busca desenvolver seus próprios sistemas de defesa, o que resulta em investimentos diluídos, atrasos em programas e aumento de custos de produção.
Essa dispersão retarda o rearmamento e obriga a Europa a depender de fornecedores externos, como a Coreia do Sul, dificultando a formação de um bloco coeso capaz de responder rapidamente a crises maiores.
Especialistas concordam que a Europa pode se armar e se defender, mas esse processo será gradual. Projetos para mísseis de longo alcance, constelações de satélites e maior integração industrial estão em andamento, com países como França e Reino Unido buscando reduzir suas dependências.
Entretanto, por muitos anos, a Europa precisará de um grau significativo de apoio dos Estados Unidos. Essa corrida de um trilhão de dólares não representa uma ruptura abrupta com Washington, mas sim uma transição lenta e complexa em direção a uma defesa europeia mais autossuficiente.
