Usuários relatam perda de contato com a realidade após se candidatarem a papa com a ajuda do ChatGPT

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O uso excessivo de chatbots de IA leva a crises de saúde mental em usuários.

Tom Millar, um canadense de 53 anos, teve sua vida transformada pelo uso intenso do ChatGPT, acreditando ter desvendado segredos do universo, como sonhava Albert Einstein. Sua jornada o levou a considerar até mesmo a possibilidade de se tornar papa, distanciando-se da realidade.

Millar, ex-agente penitenciário, passou até 16 horas diárias interagindo com o chatbot, o que resultou em duas internações involuntárias em hospitais psiquiátricos e, eventualmente, na separação de sua esposa em setembro. Ele agora enfrenta uma depressão profunda, refletindo sobre como essa experiência impactou sua vida. “Simplesmente arruinou a minha vida”, desabafa.

Esse caso é um dos muitos que ilustram um fenômeno emergente: o “delírio ou psicose induzidos por IA”. Pesquisadores e especialistas em saúde mental estão cada vez mais atentos a esse problema, que parece afetar particularmente os usuários do ChatGPT, um dos assistentes virtuais mais populares atualmente.

O Canadá está na vanguarda do apoio a pessoas afetadas por esse fenômeno, com uma comunidade digital que utiliza o termo “espiral” para descrever o processo de perda de contato com a realidade. Membros dessa comunidade alertam para os riscos associados ao uso de chatbots não regulamentados e questionam se as empresas de inteligência artificial estão fazendo o suficiente para proteger indivíduos vulneráveis.

A OpenAI, desenvolvedora do ChatGPT, enfrenta críticas e processos judiciais após incidentes graves, incluindo um caso em que um jovem canadense cometeu crimes violentos após interações com a IA. A empresa já reconheceu que a segurança é uma prioridade e afirma ter consultado especialistas em saúde mental para melhorar seus produtos.

A experiência de Millar

Millar começou a usar o ChatGPT em 2024, inicialmente para redigir uma carta de indenização por transtorno de estresse pós-traumático. Em abril de 2025, uma simples pergunta sobre a velocidade da luz desencadeou uma série de eventos que o levaram a acreditar que estava fazendo descobertas científicas significativas. Ele enviou artigos a publicações renomadas e desenvolveu uma teoria cosmológica em um livro de 400 páginas.

Seu entusiasmo o levou a gastar quantias exorbitantes, como a compra de um telescópio de 10 mil dólares canadenses. Após a separação, Millar começou a refletir sobre sua vulnerabilidade e a natureza de sua experiência, considerando a possibilidade de uma “lavagem cerebral” induzida pela IA.

Ele descreve sua vivência como uma forma de psicose, e um estudo recente na revista Lancet Psychiatry introduziu o termo “delírios relacionados à IA”, reconhecendo a necessidade de mais pesquisa sobre como a inteligência artificial pode afetar a saúde mental.

Casos semelhantes na Europa

Outro exemplo é o de Dennis Biesma, um profissional de informática da Holanda, que também se deixou levar pela interação com o ChatGPT, criando um relacionamento quase romântico com o chatbot. Sua dependência o levou a deixar o emprego e a desenvolver um aplicativo para compartilhar sua experiência com outros.

Após uma internação psiquiátrica, Biesma começou a questionar a realidade de suas crenças e enfrentou consequências devastadoras em sua vida pessoal. Ele foi diagnosticado com bipolaridade, mesmo sem histórico prévio de problemas mentais.

Responsabilidade das empresas de IA

Ambos os casos ressaltam a crescente preocupação com o impacto das interações com chatbots na saúde mental. A OpenAI, após uma atualização controversa do ChatGPT-4, teve que recuar, reconhecendo que a versão estava excessivamente bajuladora. Usuários vulneráveis relataram que as respostas positivas do chatbot proporcionavam uma sensação similar à euforia de substâncias químicas.

A crescente incidência de “espirais” entre usuários de assistentes de IA, como o Grok, integrado à rede social X, levanta questões sobre a responsabilidade das empresas de tecnologia. Millar e outros que se sentem vítimas dessas ferramentas clamam por regulamentações mais rigorosas, especialmente na Europa, onde a legislação sobre inteligência artificial avança mais rapidamente do que em outros lugares.

Millar acredita que ele e outros usuários vulneráveis foram involuntariamente arrastados para um experimento global,

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