A empreender nem sempre é a melhor opção
Reflexões sobre o empreendedorismo e seus desafios no mercado atual
Empreender se tornou uma verdadeira mania, quase um dever cívico na sociedade contemporânea. No entanto, a realidade entre o ideal e a prática revela um abismo que pode resultar em frustrações e traumas profissionais.
É importante ressaltar que a intenção aqui não é desmerecer a cultura empreendedora, mas sim analisar criticamente essa tendência que transforma o ato de abrir um negócio em uma narrativa única e repetitiva. A ideia de que, se não há emprego, a solução é empreender, pode levar a resultados desastrosos. Muitos talentos que poderiam brilhar como funcionários ou gestores acabam se lançando em empreendimentos por necessidade ou por pressão social, sem o suporte necessário, como equipes, capital ou processos estruturados. Essa falta de estrutura pode sufocar a criatividade e reduzir a capacidade produtiva desses profissionais.
A pressão constante para gerar resultados imediatos pode ser um fator devastador para a criatividade. O ambiente ideal para a inovação requer tempo, segurança e uma rede de apoio. Quando a urgência por faturamento se sobrepõe à estratégia, as decisões se tornam escolhas de sobrevivência, levando à padronização e ao medo de assumir riscos. O modelo “faça você mesmo” frequentemente resulta em amadorismo, e muitos projetos promissores falham quando os empreendedores se veem obrigados a desempenhar múltiplas funções, perdendo a oportunidade de focar em suas verdadeiras habilidades.
Um exemplo ilustrativo é o de um empresário do setor gastronômico que enfrentava dificuldades na promoção de sua equipe. Ele observou que promover o melhor garçom a gerente de salão poderia resultar na perda de um excelente profissional no atendimento e na ausência de liderança na nova função. Essa situação exemplifica os dilemas que muitos empresários enfrentam ao tentar equilibrar a eficiência operacional com o desenvolvimento de suas equipes.
É notável que a retórica em favor do empreendedorismo tenha crescido em um contexto de precarização do mercado de trabalho. Em vez de se focar na criação de empregos de qualidade, a sociedade tem celebrado soluções improvisadas e individuais. Essa abordagem pode oferecer alívios temporários, mas não aborda a necessidade crítica de formar talentos com planos de carreira e qualificações adequadas.
Embora empreender seja uma atividade digna, abandonar uma carreira tradicional sem uma análise cuidadosa das próprias capacidades e da estrutura necessária para enfrentar o mercado pode não ser a melhor escolha. O mundo dos negócios, seja na indústria, comércio ou serviços, demanda tanto bons empresários quanto equipes competentes. Continuar a promover a narrativa simplista do “empreenda e pronto” pode resultar em um desperdício contínuo de capital humano.
