Ano eleitoral demanda reflexão sobre o papel do Estado como investidor indireto em startups
Discussão sobre o papel do Estado como investidor em inovação é crucial em ano eleitoral.
Em ano eleitoral, o foco das discussões costuma estar em temas visíveis, mas é essencial aprofundar o debate sobre o papel do Estado como investidor indireto em inovação. No Brasil, essa reflexão se torna ainda mais relevante em um ecossistema de startups que, apesar de seu crescimento, continua dependente de condições macroeconômicas, capital disponível e políticas públicas de incentivo.
É um erro comum acreditar que a inovação é resultado exclusivo da iniciativa privada. A história econômica mostra que o Estado tem sido fundamental na formação de ecossistemas tecnológicos robustos. Nações como Estados Unidos, Israel e Coreia do Sul construíram suas bases de inovação por meio de investimentos públicos, assumindo riscos que o mercado privado não estava disposto a correr. No Brasil, essa atuação se dá principalmente por meio de instrumentos indiretos, como fundos de venture capital com participação pública e programas de fomento.
Instituições como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) são essenciais nesse cenário. Sua atuação vai além da concessão de crédito, buscando induzir o mercado a atrair capital privado e reduzir riscos. Um exemplo é a estratégia de co-investimento em fundos de venture capital, onde o Estado fortalece o ecossistema ao aportar recursos em fundos geridos por especialistas, sem escolher diretamente as startups. Em 2023, o BNDES anunciou investimentos de até R$638,5 milhões, com potencial para mobilizar cerca de R$2,8 bilhões, a maior parte vinda do setor privado.
O papel do Estado se torna ainda mais crucial em momentos de retração do capital privado, especialmente em economias emergentes. Em períodos de juros elevados ou incerteza global, investidores tendem a buscar ativos mais seguros, o que reduz o fluxo de capital para startups. A presença do Estado pode ser decisiva para evitar a descontinuidade de projetos inovadores e preservar capacidades tecnológicas estratégicas.
Outro aspecto importante é o investimento público na redução de desigualdades regionais e setoriais. O ecossistema brasileiro de startups é concentrado, com cerca de 55% das deep techs localizadas em São Paulo, refletindo desigualdade no acesso a financiamento e infraestrutura. Programas públicos podem ajudar a descentralizar recursos para regiões menos desenvolvidas e setores estratégicos.
Entretanto, a atuação do Estado como investidor indireto não está isenta de críticas. A alocação eficiente de recursos públicos é uma preocupação, pois decisões de investimento podem ser influenciadas por critérios políticos. Há também o debate sobre o crowding out, onde a presença do Estado poderia desincentivar o setor privado. Embora muitas evidências indiquem que ocorre o crowding in, a governança desses mecanismos exige transparência e avaliação contínua de resultados.
Medir o retorno desses investimentos é outro desafio. Os resultados de investimentos em inovação são de longo prazo e muitas vezes indiretos. O sucesso de uma startup pode levar anos para se concretizar, e até iniciativas que não prosperam podem gerar externalidades positivas, como formação de capital humano e fortalecimento do ecossistema. Isso demanda uma mudança na avaliação de políticas públicas, incorporando métricas que vão além do retorno financeiro imediato.
Em ano eleitoral, essa discussão se torna complexa, frequentemente capturada por narrativas simplificadoras. Há discursos que defendem a redução do papel do Estado e outros que propõem uma ampliação da intervenção estatal, muitas vezes sem considerar os desafios de governança. O debate deve reconhecer que o papel do Estado como investidor indireto é corrigir falhas de mercado e criar condições para um funcionamento mais eficiente.
No Brasil, essa função é particularmente relevante devido às características estruturais da economia, como a baixa densidade tecnológica e a elevada concentração de renda. Startups operam na fronteira da inovação e dependem de um ambiente que tolere experimentação e fracasso, algo que dificilmente se sustenta sem apoio público.
Refletir sobre o papel do Estado em ano eleitoral é, portanto, refletir sobre o projeto de país. Trata-se de decidir se o Brasil quer ser apenas consumidor de tecnologia ou protagonista na sua criação e se pretende construir um ecossistema resiliente e autônomo. O Estado deve ser visto como parte de uma engrenagem que envolve universidades, empresas, investidores e sociedade civil.
