Arqueólogos descobrem método para decifrar papiros de Herculano após dois mil anos de inacessibilidade
Avanços na leitura de papiros carbonizados revelam tesouros da Vila dos Papiros em Herculano.
Quando o Vesúvio entrou em erupção há quase 2 mil anos, as cidades de Pompeia, Herculano e Estábia foram devastadas, resultando em um retrato da vida romana sob camadas de cinzas vulcânicas. Entre as descobertas arqueológicas, destaca-se a Vila dos Papiros, uma antiga biblioteca em Herculano que abriga centenas de papiros, representando um sonho para historiadores e estudiosos.
No entanto, os pergaminhos encontrados estavam carbonizados e pareciam ilegíveis. Recentemente, inovações tecnológicas permitiram a leitura de um desses papiros sem a necessidade de desenrolá-lo, oferecendo novas esperanças para a compreensão do conhecimento perdido.
Viagem a 79 d.C.
A data exata da erupção do Vesúvio ainda é debatida, com novas pesquisas sugerindo que poderia ter ocorrido no outono ou até no inverno do hemisfério norte, em vez do tradicionalmente acreditado agosto. O vulcão lançou uma chuva de cinzas que destruiu as cidades vizinhas, preservando, porém, vestígios da vida cotidiana da época.
As escavações em Herculano, iniciadas no século XVIII, revelaram uma vasta coleção de papiros, incluindo obras do filósofo epicurista Filodemo de Gadara. Apesar de sua importância, muitos desses textos permaneciam ilegíveis devido à deterioração causada pela erupção.
“Extremamente delicados”
A Vila dos Papiros é considerada um tesouro único, mas seu conteúdo é frustrante para os estudiosos. Qualquer tentativa de desenrolar os papiros representa um risco significativo de destruição. Os especialistas reconhecem que o processo de decifração é extremamente complexo devido à fragilidade dos materiais.
Historicamente, tentativas de manuseio nos séculos XIX e XX resultaram em danos irreparáveis a alguns documentos. Contudo, com o avanço das tecnologias de imagem e inteligência artificial, a possibilidade de acessar esses textos sem destruição física se tornou uma realidade.
Desafio do Vesúvio
Em 2023, foi lançado um edital internacional que desafiava cientistas e arqueólogos a desenvolverem novas técnicas para decifrar os Manuscritos de Herculano sem abri-los. A iniciativa, chamada “Desafio do Vesúvio”, gerou um movimento global em busca de soluções inovadoras, oferecendo recompensas substanciais.
Os resultados começaram a aparecer rapidamente. A comunidade científica utilizou visão computacional e aprendizado de máquina para ler os pergaminhos, um feito que marca um avanço significativo após séculos de tentativas infrutíferas.
O que eles conseguiram?
Os pesquisadores conseguiram desenrolar e ler o conteúdo do pergaminho conhecido como PHerc. 1667, que estava completamente impenetrável até então. Este manuscrito, uma das peças preservadas da Vila dos Papiros, revelou-se um tesouro de conhecimento que havia permanecido inacessível por quase 2 mil anos.
Relatos históricos indicam que o pergaminho era relativamente intacto no século XVIII, mas tentativas anteriores de decifração danificaram suas camadas externas.
Fazendo isso sem desdobrá-lo
Os cientistas foram capazes de revelar quase 1,5 metro de texto em 20 colunas sem abrir fisicamente o papiro. Utilizando digitalização e inteligência artificial, conseguiram ler o manuscrito da biblioteca de Herculano, resultando em descobertas significativas. Essa conquista não apenas permitiu a leitura de um documento que não era acessível há séculos, mas também estabeleceu um método que pode ser aplicado a outros manuscritos.
Além disso, outras colunas de um texto armazenado em Oxford também foram recuperadas, identificando obras completas do filósofo Filodemo.
Descoberta surpreendente
A leitura do pergaminho PHerc. 1667 trouxe surpresas. A caligrafia e as referências internas sugerem que ele pode datar do século II a.C., tornando-se um dos mais antigos da coleção de Herculano. O conteúdo do manuscrito é um tratado filosófico sobre o estoicismo, o que contrasta com a predominância de textos epicuristas na biblioteca.
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