ARTIGO: Sustentabilidade e Espiritualidade: uma convergência necessária
por Juliano Rodrigues Gimenez
Vivemos um tempo em que os desafios ambientais deixaram de ser projeções futuras para se tornarem realidade cotidiana. Eventos extremos, escassez hídrica, degradação de ecossistemas e desigualdades socioambientais evidenciam que a forma como nos relacionamos com o planeta precisa ser revista. Nesse contexto, a sustentabilidade já não pode ser compreendida apenas como um conjunto de técnicas ou normas a serem cumpridas. Ela exige uma mudança mais profunda, que toca valores, sentido de vida e, inclusive, a espiritualidade.
Ao longo da minha trajetória profissional, iniciada na engenharia civil, na área de recursos hídricos e saneamento ambiental, atuei nos setores público e privado e, há 22 anos, na Universidade de Caxias do Sul, em projetos ambientais aplicados em diversos municípios e organizações. Essa vivência evidenciou que os desafios ambientais não são apenas técnicos, mas, sobretudo, humanos.
Mesmo diante das melhores tecnologias, projetos e planos, sem uma base ética e compromisso com o bem comum, esses instrumentos tendem a perder efetividade. É nesse ponto que a espiritualidade emerge como elemento relevante.
Quando falo em espiritualidade, não me refiro a uma prática religiosa específica, mas a uma dimensão mais ampla de sentido: a capacidade de reconhecer o impacto das nossas ações sobre os outros, o ambiente e as futuras gerações. Trata-se de uma consciência que nos conecta com algo maior do que interesses imediatos. Nesse sentido, quem atua com sustentabilidade carrega, em alguma medida, uma expressão de fé: a convicção de que é possível construir um mundo mais equilibrado e justo.
No entanto, a fé, por si só, não basta. Ela precisa se converter em ação. É a combinação entre convicção e prática que gera transformação real. Sustentabilidade sem valores tende a ser apenas formalidade; espiritualidade sem ação, estéril. Quando ambas caminham juntas, criam base sólida para mudanças consistentes e duradouras.
Foi nesse contexto que me aproximei da ADCE Caxias do Sul (Associação dos Dirigentes Cristãos de Empresas) e reconheci nela um espaço frutífero para integrar fé e ação. Há mais de 40 anos, a entidade atua na formação de lideranças orientadas por valores cristãos, ética e responsabilidade, reunindo empresários, profissionais e lideranças comunitárias comprometidos não apenas com resultados, mas com o legado que deixam para a sociedade. De caráter cristão e ecumênico, constitui um ambiente de reflexão e fortalecimento de lideranças com propósito.
A proposta da ADCE é simples e necessária: contribuir para que lideranças atuem com coerência entre discurso e prática, influenciando positivamente seus ambientes e ampliando o impacto de suas decisões, fortalecendo uma cultura de responsabilidade conectada aos princípios da sustentabilidade.
Por isso, deixo uma provocação: que cada um reflita sobre o sentido de suas escolhas e o impacto de suas ações. Sustentabilidade não é apenas um conceito, mas uma prática cotidiana, que começa no indivíduo e se expande para a coletividade. E, nesse caminho, a espiritualidade pode ser um verdadeiro direcionador.
Ao final deste mês de abril, a ADCE Caxias do Sul realizará mais um Encontro de Reflexão. Fica o convite para que conheçam a entidade, participem e se permitam vivenciar esse espaço de diálogo e construção.
Porque, no fundo, cuidar do mundo é também uma forma de cuidar de si e de cuidarmos uns dos outros.
Juliano Rodrigues Gimenez é vice-presidente da Associação de Dirigentes Cristãos de Empresas (ADCE) de Caxias do Sul.
Foto: Divulgação
