Autonomia financeira como meio para combater a violência
A violência psicológica é a forma mais denunciada de abuso de gênero no Brasil.
A violência psicológica liderou as denúncias registradas pelo Ligue 180 entre janeiro e julho de 2026. Durante esse período, o canal recebeu 98.705 denúncias de violência de gênero, das quais 35.284, representando cerca de 35%, estavam relacionadas a esse tipo específico de abuso. Os dados foram divulgados pelo Ministério das Mulheres em agosto deste ano.
Segundo a psicóloga Karen Scavacini, fundadora do Instituto Vita Alere, a violência muitas vezes se inicia de maneira sutil. “A violência não começa no grito. Muitas vezes começa no silêncio, na desvalorização constante e na perda gradual de autonomia emocional e material”, explica.
Karen destaca que comportamentos que podem ser vistos como normais em uma relação merecem atenção. “Quando há ameaças, controle sobre roupas, trabalho ou relações sociais, estamos diante de um relacionamento abusivo. Muitas vezes ele começa de forma branda e vai se intensificando. Muitas mulheres acabam ficando presas nesse relacionamento por não terem rede de apoio psicossocial ou autonomia financeira para romper o ciclo”, afirma.
A autonomia financeira é um fator crucial no enfrentamento à violência, pois a falta de independência econômica pode ser uma barreira significativa para que as mulheres consigam romper relações abusivas. Embora não substitua a rede de proteção, o acolhimento e os mecanismos de denúncia, a autonomia financeira amplia as possibilidades de escolha das mulheres.
No contexto atual, iniciativas voltadas ao fortalecimento econômico são essenciais para aumentar a autonomia feminina. Um exemplo é o programa Move +Mulheres, realizado pelo Grupo +Unidos em Juruti, no oeste do Pará. Este programa capacita 40 empreendedoras do município por meio de cursos, workshops e mentorias focados no desenvolvimento de negócios.
Vanessa Santarém da Silva, de 31 anos, é um exemplo de como o empreendedorismo pode proporcionar independência financeira. Enfermeira de formação e mãe, ela fundou a Tulipa Kids em 2021 após enfrentar o desemprego. “Eu precisava recomeçar. Empreender foi a forma que encontrei de sustentar minha família e ajudar outras mulheres a fazer o mesmo”, relata.
Como semifinalista de uma edição anterior do Move +Mulheres, Vanessa desenvolveu um plano de inovação durante a formação, o que a ajudou a estruturar melhor a gestão e a ampliar a presença digital da empresa. “Parei de trabalhar só com intuição e passei a empreender com técnica, com planejamento e metas reais”, afirma.
O Ligue 180 opera gratuitamente 24 horas por dia, oferecendo orientação sobre direitos, informações sobre a rede de atendimento e encaminhamento de denúncias. Em situações de emergência, a recomendação é acionar a Polícia Militar pelo número 190.
