Busca por Outono

Compartilhe essa Informação

Reflexões sobre memórias e a busca por conexões perdidas

O portão do antigo colégio se encontra aberto, mas o porteiro não está à vista. Sem hesitar, sigo pelos corredores desabitados, guiado mais pelo instinto do que pela curiosidade. As salas de aula, agora desertas, evocam lembranças dos meus tempos no Rosário, com os bancos de carvalho polidos pelo toque de milhares de alunos que ali passaram. Embora eu deva me afastar dessas memórias, um canto profundo e melancólico ecoa do final do corredor.

Essa sensação não é nova – como em um sonho, retorno ao bairro da minha infância. Mesmo após tanto tempo, as casas com portas e janelas ainda devem abrigar vida. Subo a ladeira, onde os grandes jacarandás se erguem, até chegar à praça coberta de folhas de outono. Em algum lugar, num futuro distante, um poeta recitará versos para sua amada, versos que jamais serão ouvidos, levados pelo primeiro vento de inverno.

A paisagem se transforma e se renova, mas os sons persistem – o lamento do violino de um músico de rua que insistia em despertar as manhãs de domingo, trazendo à tona emoções há muito esquecidas. A rua, o bairro, a cidade mudaram; amigos se mudaram para longe, mas continuo em busca de um sobrado branco com venezianas verdes, sempre fechadas. É uma visita a um amigo negligenciado, que eu gostaria muito de rever.

Ao final de uma rua sem saída, um último casarão pode ser o que procuro. Bato à porta, uma, duas vezes, mas ninguém responde; a casa aparenta estar deserta, talvez abandonada. Retorno pela rua, carregando o peso de uma busca frustrada e sem sentido. Os poetas compreendem bem essa angústia e nos ajudam a decifrar o que se passa na alma humana. Como a escritora Clarice Lispector, que expressou com precisão: “Muitas vezes tenho vontade de encontrar não sei o quê. E nem sei onde. Para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *