Caviar, champagne e espiões marcam o declínio de Yalta
Conferência de Yalta: o encontro que moldou o futuro do século XX
No segundo andar do Palácio Livadia, cada porta exibia um cartão indicando os horários e locais dos banheiros, uma organização feita por Norris Houghton, tenente da reserva da Marinha americana. Ele havia sido encarregado de acomodar a delegação dos Estados Unidos, que contava com apenas nove banheiros para um total de cento e um homens e duas mulheres. Este ambiente peculiar serviu de cenário para a histórica Conferência de Yalta, onde o futuro do mundo estava prestes a ser redesenhado.
Era fevereiro de 1945, e Franklin Roosevelt, presidente dos Estados Unidos, se reunia na Criméia com Yosef Stalin e Winston Churchill para discutir a reconfiguração das fronteiras e o equilíbrio de poder global. Embora a guerra ainda estivesse em andamento, os sinais de um desfecho se tornavam evidentes: o Dia D, em 6 de junho de 1944, havia sido um sucesso, e as tropas aliadas estavam avançando na Europa, enquanto os soviéticos reconquistavam a Polônia e adentravam o território alemão.
Apesar da escassez de espaço, Stalin buscou impressionar com detalhes luxuosos. O café da manhã dos americanos e britânicos era servido com uma generosa porção de caviar fresco, enquanto um general americano, que não apreciava peixe, se alimentava de barras de chocolate. Na primeira noite de Houghton em Livadia, um garçom serviu caviar a ele e a outros oficiais subalternos, acompanhados de vodca e vinho caucasiano. A decoração e o serviço eram todos oriundos de Moscou, e a demanda por limões levou à plantação de um limoeiro no local.
A fartura de alimentos contrastava com o racionamento que predominava em outras partes do mundo. A secretária de Churchill, Jo Sturdee, mencionou em uma carta que estava consumindo muita manteiga e desejava poder estocá-la, uma vez que na Grã-Bretanha esse produto era escasso devido à guerra. Durante a conferência, a infraestrutura ao redor do palácio foi manipulada para facilitar o deslocamento de Roosevelt, que utilizava uma cadeira de rodas, enquanto escutas eram disfarçadas entre flores nos jardins.
Os soviéticos, liderados por Stalin, preferiam vodka, não por seu teor alcoólico, mas pela cor. Em algumas ocasiões, Stalin reabastecia seu copo com água para manter a aparência de sobriedade, enquanto outros convidados se deixavam levar pelo excesso. No jantar de 8 de fevereiro, um participante contou vinte pratos e quarenta e cinco brindes, enquanto Churchill descrevia Yalta como uma “Riviera de Hades”, levando consigo um suprimento generoso de uísque.
Após sete dias de intensas negociações, os líderes chegaram a um consenso sobre questões cruciais, incluindo o futuro da Polônia, a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e a guerra com o Japão. Durante um banquete oferecido por Churchill, os pratos eram requintados, com caviar, salmão e leitão, seguidos por uma variedade de iguarias harmonizadas com vinhos finos.
Uma encomenda especial, codificada como “Yalta Voyage 208”, trouxe para a delegação britânica um carregamento de champanhe Veuve Clicquot de 1928 e centenas de garrafas de vinho alemão. Churchill, ao brindar com Stalin, fez uma declaração cordial, reconhecendo as tensões passadas, mas enfatizando a necessidade de união diante dos perigos comuns.
A conferência de Yalta durou oito dias e teve um impacto profundo no mundo do século XX, estabelecendo as bases para a criação da ONU, redefinindo fronteiras e deixando questões não resolvidas que culminariam em conflitos nas décadas seguintes. A configuração estabelecida em Yalta e o conceito de multilateralismo estão atualmente sob escrutínio, especialmente com os avanços políticos recentes que desafiam as premissas do acordo.
