Crescimento do eleitorado idoso influencia campanhas eleitorais, mas abstenção representa desafio
Eleitorado idoso atinge recorde histórico no Brasil com 23% dos votantes acima de 60 anos.
Mais de 158 milhões de brasileiros estão aptos a votar nas próximas eleições, e entre eles, 23% são pessoas com mais de 60 anos, representando o maior eleitorado idoso já registrado no país.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam que o número de idosos com título de eleitor ativo cresceu cerca de 74% desde 2010, totalizando mais de 36,8 milhões de eleitores. Essa mudança demográfica torna o grupo um segmento decisivo para qualquer candidatura que busque competitividade nacional.
De acordo com especialistas, o envelhecimento do eleitorado traz à tona a importância de temas cruciais como saúde pública, acesso a medicamentos, previdência, assistência social, segurança, mobilidade e custo de vida. Esses tópicos não apenas impactam diretamente a população idosa, mas também suas famílias, especialmente aquelas que cuidam de parentes mais velhos.
A cientista política Mayra Goulart observa que, embora a idade possa estar associada a posturas mais conservadoras em questões morais ou comportamentais, isso não implica que os eleitores idosos votem exclusivamente em candidatos de uma determinada esfera política. Eles tendem a se preocupar mais com políticas públicas, proteção social, previdência e saúde, refletindo uma experiência direta com serviços estatais.
Participação social
Para os eleitores acima de 70 anos, que têm o direito de voto facultativo garantido pela Constituição de 1988, não há necessidade de justificar a ausência nas eleições, nem penalizações por não comparecimento. O título de eleitor também não é cancelado após três eleições sem voto.
No bairro das Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro, Antonieta da Silva Campos, de 96 anos, reafirma seu compromisso com a democracia ao votar. Ela recorda com carinho de sua primeira eleição, quando ajudou a eleger Getúlio Vargas na década de 50.
Ao escolher um candidato, Antonieta destaca a importância da pesquisa. Ela avalia o histórico do candidato e prioriza a honestidade, buscando pessoas íntegras para os cargos públicos.
A participação de idosos nas eleições tem crescido, e a cientista política Mayra Goulart também ressalta a importância da participação feminina nesse processo. Dados do Censo de 2022 mostram que as mulheres representam 54% da população entre 60 e 69 anos e 67,4% entre aquelas com 90 anos ou mais.
“Considerar o eleitorado idoso envolve também entender as demandas das mulheres, que frequentemente são responsáveis pelas redes familiares de cuidado e enfrentam desafios relacionados à longevidade e à desigualdade de renda”, afirma a pesquisadora.
Abstenções
Atualmente, cerca de 16 milhões de idosos com mais de 70 anos representam 10,6% do total de eleitores. Na última eleição, 8 milhões desse grupo não compareceram às urnas, resultando em uma abstenção de quase 60%.
Ivalda Barbosa, de 76 anos, é uma das que decidiram não votar mais. Ela relata que sua participação política não foi incentivada ao longo da vida e que começou a votar apenas aos 38 anos, por necessidade de estar regularizada com a Justiça Eleitoral.
Apesar de sua escolha de não votar, Ivalda reconhece a importância do voto. Ela sempre prestava atenção nas propostas dos candidatos, optando por aqueles que a interessavam.
Mayra Goulart sugere que uma maneira de reduzir a abstenção é aumentar a produção de conteúdos direcionados à população idosa, utilizando formatos e canais apropriados. Um esforço específico de mobilização é necessário para facilitar o comparecimento desse grupo às urnas.
A ausência nas eleições pode ser atribuída a fatores como limitações de mobilidade, problemas de saúde e dependência de familiares, além de desinteresse político.