Desigualdade racial é mais acentuada que a de gênero nas campanhas para a Câmara
Disparidades financeiras marcam a corrida eleitoral para a Câmara dos Deputados
O financiamento das campanhas para a Câmara dos Deputados revela diferenças significativas entre candidatos de diferentes gêneros e raças. A análise mostra que o recorte racial apresenta uma disparidade mais acentuada do que o de gênero, especialmente entre aqueles que ainda não ocupam um cargo público.
Entre os candidatos sem mandato, as mulheres recebem, em média, R$ 324 mil, enquanto os homens têm uma média de R$ 299 mil. No que diz respeito à raça, as mulheres brancas se destacam com uma média de R$ 364 mil, em contraste com os R$ 285 mil recebidos por mulheres pretas ou pardas. Para os homens, a situação é similar: os brancos também recebem, em média, R$ 364 mil, enquanto os pretos e pardos ficam com R$ 230 mil.
Mandato reduz as diferenças
Quando se observa os parlamentares que buscam a reeleição, as disparidades de gênero e raça tendem a diminuir, e em alguns casos, se invertem. As deputadas apresentam uma receita média de R$ 2,67 milhões, acima dos R$ 2,29 milhões dos homens. Entre as deputadas, as brancas alcançam R$ 2,74 milhões, enquanto as pretas ou pardas têm uma média de R$ 2,55 milhões.
No caso dos homens com mandato, a situação se inverte: deputados pretos ou pardos reportam uma média de R$ 2,39 milhões, superando os R$ 2,26 milhões dos brancos. O contraste entre aqueles que têm e não têm mandato é notável. As deputadas recebem, em média, 8,2 vezes mais do que as candidatas sem mandato, enquanto entre os homens, essa diferença é de 7,7 vezes.
Entre negros, deputados recebem até dez vezes mais
A análise conjunta de gênero e raça revela um aumento nas disparidades. As deputadas pretas e pardas que buscam reeleição têm uma receita média de R$ 2,55 milhões, em comparação com R$ 285 mil das candidatas negras sem mandato — uma diferença de nove vezes. Para os homens pretos e pardos, a média é de R$ 2,39 milhões para os parlamentares em exercício, contra R$ 230 mil entre os demais candidatos negros, resultando em uma diferença de 10,4 vezes.
Entre as mulheres brancas, a discrepância é de 7,5 vezes, com R$ 2,74 milhões para as deputadas e R$ 364 mil para as demais candidatas. Já entre os homens brancos, a diferença é de 6,2 vezes, com médias de R$ 2,26 milhões e R$ 364 mil, respectivamente.
Essas informações evidenciam que a condição de incumbente traz uma vantagem financeira significativa em todos os grupos analisados. Contudo, os dados não permitem afirmar que essas diferenças são exclusivamente atribuídas ao mandato, pois a arrecadação também pode ser influenciada por critérios dos partidos, competitividade das candidaturas, doações de pessoas físicas, autofinanciamento e outras fontes permitidas.
Regras para mulheres e negros
A Justiça Eleitoral define reservas específicas de recursos públicos para candidaturas de mulheres, pessoas negras e indígenas. Para as mulheres, os partidos devem destinar recursos públicos proporcionalmente à sua participação entre as candidaturas, respeitando o piso legal. Existem também normas específicas para a distribuição destinada às candidaturas negras e indígenas.
Os dados revelam que a barreira mais desafiadora para mulheres e candidatos negros ainda é a entrada na Câmara. Uma vez eleitos, eles competem por reeleição em condições de financiamento muito mais favoráveis em comparação com os candidatos que buscam a primeira vaga.
Os dados consideram todas as receitas declaradas pelas campanhas, incluindo doações de pessoas físicas, autofinanciamento e outras fontes legais. Os valores apresentados refletem as prestações de contas até 25 de setembro e podem sofrer alterações até o fim da campanha.
O impacto do mandato no financiamento eleitoral é significativo, com deputados federais que buscam reeleição recebendo, em média, quase oito vezes mais recursos do que os demais candidatos à Câmara.