Due diligence e as barreiras de entrada no mercado atual
Confiabilidade do fornecedor se torna critério essencial nas cadeias de suprimento.
O cenário atual das cadeias de fornecimento está em constante evolução, onde apenas preço competitivo e cumprimento de prazos não garantem mais a inclusão de fornecedores. A confiabilidade, sob aspectos éticos, jurídicos e reputacionais, passou a ser um critério prioritário na seleção de parceiros comerciais.
Tratar questões como compliance e proteção de dados como temas para o futuro demonstra um descompasso com a realidade. A contratação por grandes empresas já requer, em muitos casos, a demonstração de estruturas mínimas de integridade, que incluem programas de compliance formalizados, códigos de conduta, canais de denúncia e treinamentos periódicos, além da conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Os processos de homologação e due diligence refletem essa transformação. Questionários mais detalhados buscam não apenas confirmar a adoção dessas práticas, mas também avaliar sua efetividade e abrangência, incluindo a gestão de riscos na cadeia de terceiros.
Para empresas que atuam no ambiente digital, como desenvolvedoras de plataformas e aplicativos, a conformidade com a LGPD é uma condição indispensável. O tratamento de dados pessoais exige a comprovação de um programa estruturado de governança em privacidade, acompanhado de medidas de segurança da informação. A falta desses elementos aumenta o risco jurídico da contratação, tornando-a inviável.
Observa-se, assim, uma rápida transformação: critérios antes considerados diferenciais competitivos estão se tornando requisitos básicos. Esse fenômeno se estende além da proteção de dados.
No âmbito de ESG, houve uma significativa mudança em um curto período. Em um relatório de 2021 sobre cadeias de suprimentos globais, o ESG era visto como desejável. Em 2023, passou a ser considerado essencial. Uma trajetória semelhante está se desenhando em relação à inteligência artificial.
Tecnologias como a IA generativa estão sendo integradas às cadeias de suprimentos, promovendo eficiência e aprimorando mecanismos de governança. A governança em Inteligência Artificial já se destaca como um novo critério de avaliação nas contratações.
Projeções indicam que, até 2035, cadeias de suprimentos poderão se tornar majoritariamente autônomas, com a inteligência artificial desempenhando um papel central na coordenação de processos e na resposta a eventos em tempo real. Nesse contexto, a capacidade de integrar tecnologia com responsabilidade regulatória será um atributo decisivo.
Além disso, as exigências relacionadas ao ESG tornaram-se mais objetivas e mensuráveis, impulsionadas por regulamentações e pela pressão social por práticas empresariais sustentáveis. A responsabilidade sociotrabalhista na cadeia de fornecimento também se tornou um foco, com empresas sendo cobradas não apenas por suas próprias práticas, mas também pelo comportamento de seus fornecedores, incluindo a gestão de riscos psicossociais e a promoção de ambientes inclusivos.
Não existe uma fórmula única aplicável a todos os setores. A materialidade desses critérios varia conforme o modelo de negócio. No setor de tecnologia, a proteção de dados e a governança da informação são essenciais. Na indústria, destacam-se temas como sustentabilidade e segurança do trabalho. No agronegócio, normas internacionais relacionadas à redução do desmatamento e à precificação do carbono impactam o acesso a mercados. No setor de serviços, práticas de compliance e responsabilidade social são primordiais.
Portanto, empresas que se antecipam às exigências tendem a consolidar uma posição estratégica, enquanto aquelas que esperam a imposição regulatória muitas vezes perdem oportunidades. A falta de evidências consistentes de boas práticas de governança e ESG já representa um risco concreto de exclusão de oportunidades comerciais.
A adaptação a essas tendências deve ser vista como uma estratégia de posicionamento. Tornar-se um fornecedor confiável, estruturado e alinhado às melhores práticas não apenas facilita contratos, mas fortalece a reputação e sustenta relações de longo prazo em mercados cada vez mais exigentes.
