Eleições em Paris marcam triunfo político da bicicleta
Emmanuel Gregoire é eleito novo prefeito de Paris em uma disputa acirrada.
PARIS – O socialista Emmanuel Gregoire, ex-colaborador da atual prefeita Anne Hidalgo, conquistou a eleição municipal de Paris. Após a confirmação do resultado, Gregoire utilizou uma Vélib’ (bicicleta pública parisiense) para se dirigir à sede da prefeitura, localizada às margens do rio Sena, onde se encontrou com Hidalgo e seus apoiadores.
A eleição foi bastante competitiva. No segundo turno, Gregoire superou Rachida Dati, que, após sua passagem pelo governo de Nicolas Sarkozy, se posicionou mais ao centro e, recentemente, voltou a se alinhar à direita. Dati, que foi Ministra da Cultura sob a presidência de Macron, enfrentou críticas severas antes de sua saída do cargo. A terceira colocação ficou com Sophia Chikirou, da France Insoumisse, que obteve 8% dos votos.
Nos últimos anos, a bicicleta ganhou um papel significativo na cultura francesa, transcendendo sua função original de transporte e se tornando um símbolo político e ideológico. Pedalar agora representa um estilo de vida que se conecta a questões ambientais, saúde pública e mobilidade urbana, além de impactar a economia e as relações internacionais, especialmente em um contexto de dependência de combustíveis fósseis.
Paris se destacou nesse cenário, superando Amsterdam em termos de infraestrutura para ciclistas. A capital francesa se transformou na maior cidade em número de ciclovias, com uma oferta pública de bicicletas que, em alguns casos, é mais acessível do que um bilhete de metrô. Além das bicicletas públicas, empresas privadas como Voi, Dott e Lime operam na cidade, oferecendo bicicletas elétricas que facilitam a mobilidade urbana. Essa mudança fez com que os automóveis se tornassem menos comuns nas ruas parisienses, resultando em um ambiente urbano mais tranquilo.
Entretanto, essa transformação não é aceita por todos. Assim como em São Paulo, onde houve resistência às ciclovias implementadas por Fernando Haddad, em Paris também existem vozes críticas. Apesar da qualidade das ciclovias na cidade, há quem se oponha a essa mudança. Atualmente, Paris se assemelha a uma imensa ciclovia, com ruas adequadas para bicicletas e limites de velocidade para veículos, que muitas vezes são ignorados por motoristas apressados.
O renomado antropólogo francês Marc Augé, em seu livro “Elogio da Bicicleta”, capturou a essência dessa mudança, afirmando que a transformação do mundo agora está intrinsecamente ligada à transformação das cidades. Embora o livro tenha sido publicado em 2013, suas ideias continuam relevantes, especialmente em um Brasil que enfrenta sérios problemas de mobilidade urbana. A situação nas grandes metrópoles brasileiras, marcada por congestionamentos e conflitos entre diferentes modos de transporte, destaca a necessidade urgente de um novo olhar sobre a mobilidade.
O autor deste texto já tentou apresentar essa obra a várias editoras, mas nenhuma demonstrou interesse, o que é surpreendente diante da atual realidade urbana.
