Embrapa desenvolve método que revela pegada hídrica de herbicidas até 116 vezes superior na cana-de-açúcar
Estudo inova no cálculo da pegada hídrica de herbicidas na cana-de-açúcar.
Um estudo recente da Embrapa Meio Ambiente propõe um novo método para calcular a pegada hídrica cinza, que estima o volume de água necessário para diluir poluentes a concentrações seguras. Este novo modelo considera o efeito conjunto de diferentes herbicidas nos recursos hídricos, apresentando resultados significativamente diferentes em comparação ao método tradicional.
Ao aplicar essa abordagem nos herbicidas utilizados na cultura da cana-de-açúcar, a pesquisa revelou que a estimativa da pegada hídrica pode ser até 116 vezes maior do que as medições feitas pelo método convencional. Enquanto o modelo tradicional analisa cada herbicida de forma isolada, o novo cálculo leva em conta as interações e os efeitos sinérgicos entre os produtos químicos.
A pegada hídrica cinza não reflete o consumo real de água, mas sim um volume virtual que ajuda a dimensionar o impacto da contaminação ambiental. O foco do estudo está na ocorrência conjunta de herbicidas nos recursos hídricos, que resulta das aplicações agrícolas, e não na mistura dos produtos na calda de pulverização.
Na agricultura, parte dos defensivos pode ser transportada pela chuva para rios e córregos ou infiltrar-se no solo, afetando as águas subterrâneas. Durante esse processo, diferentes herbicidas podem estar presentes simultaneamente, algo que o novo método considera em suas estimativas.
Conforme exposto pelo pesquisador responsável, essa dimensão do impacto ambiental ainda é pouco reconhecida. Ele afirma que a pegada hídrica cinza representa “a conta que a natureza paga para limpar a água supostamente contaminada pela agricultura”.
O novo indicador tem se mostrado relevante também em sistemas de certificação agrícola, especialmente para os produtores de cana, visto que as certificações internacionais, que habilitam a exportação de etanol, já começam a exigir esse cálculo.
Um impacto muito maior
A pesquisa analisou 17 herbicidas de sete grupos do Herbicide Resistance Action Committee (HRAC). Ao comparar o modelo tradicional, conhecido como H-model, ao novo método proposto, a diferença foi notável.
Os resultados mostraram que a estimativa da pegada hídrica cinza, utilizando o novo modelo, alcançou 5,74 trilhões de metros cúbicos, em contraste com 49,5 bilhões sob o método tradicional. Essa discrepância é atribuída ao fato de que o novo método considera as interações dos herbicidas segundo seus mecanismos de ação.
O método tradicional avalia cada herbicida de forma isolada. No entanto, em uma safra, até 17 herbicidas diferentes podem ser utilizados na cultura da cana. Ao incorporar a ocorrência conjunta e considerar dados de toxicidade para organismos aquáticos, o novo método proporciona estimativas mais precisas.
O que muda
A principal inovação do estudo é a combinação da classificação HRAC com dois princípios de avaliação toxicológica: Adição de Concentrações (CA) e Ação Independente (IA).
Quando substâncias atuam sobre o mesmo mecanismo biológico, seus efeitos são considerados aditivos. Se atuam de forma diferente, o efeito total é determinado pelo mais tóxico, e não pela soma. Essa lógica é aplicada ao cálculo da pegada hídrica cinza, resultando em estimativas mais robustas.
Para validar os resultados, foram realizadas 10 mil simulações de Monte Carlo, um método estatístico que varia parâmetros sujeitos a incertezas. Isso torna os resultados mais representativos, em contraste com um número pontual.
Número de herbicidas
Um dos achados mais importantes da pesquisa foi que o número de herbicidas pertencentes ao mesmo grupo de mecanismo de ação tem um impacto significativo. Durante as simulações, um dos grupos analisados dominou em 99,7% dos casos.
O pesquisador observa que a pegada hídrica cinza é influenciada mais pelo tamanho do grupo HRAC do que pela toxicidade individual de cada herbicida. Portanto, recomenda-se evitar a combinação de vários produtos com o mesmo mecanismo de ação.
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