Entidade questiona sistema de recomendação de músicas em plataformas de streaming
Streaming domina o mercado musical, representando 70% da receita global.
O Global Music Report 2026, publicado pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica, revela que o streaming se consolidou como a principal fonte de receita da música gravada, correspondendo a cerca de 70% do total. Este índice se mantém estável em relação ao ano anterior, evidenciando a eficácia do modelo por assinatura e a monetização das plataformas digitais.
Felippe Llerena, presidente da Associação Brasileira da Música Independente, destaca que não há mais um mercado significativo que não esteja vinculado a essas novas dinâmicas. À medida que a distribuição musical se torna cada vez mais dependente de sistemas digitais, há um incentivo crescente para que o catálogo musical se adeque às preferências dessas plataformas.
A ABMI aponta uma transformação na linguagem musical, que se ajusta à era digital. A tendência é por faixas mais curtas, introduções rápidas e estruturas que buscam capturar a atenção do ouvinte nos primeiros segundos. Essas estratégias se tornaram comuns em um ambiente onde a retenção e o engajamento são cruciais para a circulação das obras.
De acordo com Llerena, a criação musical atualmente não se limita a intenções artísticas, mas também leva em conta as regras de distribuição que as plataformas impõem. Essa mudança de foco pode impactar a diversidade da produção musical.
O presidente da ABMI expressa preocupação com o fato de que a maioria das descobertas musicais ocorre por meio de recomendações algorítmicas e playlists, conferindo um poder significativo às corporações que controlam essas plataformas. Ele observa que, em vez de se basear em referências culturais ou trajetórias artísticas, a produção musical tende a responder a métricas que influenciam a visibilidade e o alcance das músicas.
Llerena alerta que a redução das barreiras para a publicação de músicas não garante uma maior diversidade de audições. Embora a tecnologia tenha democratizado a produção musical, a atenção do público permanece concentrada, tornando o desafio principal não apenas o lançamento de novas obras, mas a sua descoberta em um ambiente saturado por sistemas automatizados de recomendação.
Esse cenário explica por que, apesar de um número recorde de lançamentos nas plataformas, apenas uma pequena fração do catálogo musical acumula a maior parte das reproduções. Informações da Luminate, uma renomada empresa de dados de entretenimento, corroboram essa realidade, indicando que quase 90% das músicas tiveram no máximo mil reproduções ao longo de 2025.
Felippe Llerena enfatiza que a música independente desempenha um papel crucial como espaço de experimentação, identidade e inovação. No entanto, enfrenta desafios significativos para alcançar um consumo em massa, especialmente quando não consegue acessar de forma consistente os mecanismos que determinam o que será recomendado, ouvido e compartilhado.
