EUA ignoram elevação do nível do mar ao enterrar resíduos nucleares em atol remoto

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Legado nuclear dos EUA nas Ilhas Marshall enfrenta nova ameaça ambiental.

Durante 12 anos, os Estados Unidos realizaram testes nucleares em dois atóis das Ilhas Marshall, resultando em um legado radioativo significativo. A solução encontrada para gerenciar esse material foi armazená-lo em uma cratera criada por uma das explosões e cobri-lo com concreto.

Quase cinquenta anos depois, o oceano que envolve essa estrutura improvisada se tornou uma das maiores ameaças à sua integridade. A cratera, que abriga resíduos de 67 testes nucleares realizados entre 1946 e 1958, foi preenchida com solo contaminado e outros detritos, resultando em um depósito com entre 85 mil e 90 mil metros cúbicos de material radioativo.

A solução para conter esse material foi a construção da Cúpula de Runit, uma estrutura de concreto com 115 metros de diâmetro e 45 centímetros de espessura. No entanto, a cúpula não foi projetada como um repositório nuclear moderno e hermeticamente fechado, mas sim como uma tampa sobre um buraco já existente.

O problema se agrava pelo fato de que a cratera não foi revestida com uma barreira impermeável, permitindo que o material contaminado esteja em contato direto com corais porosos e águas subterrâneas. Com o passar dos anos, rachaduras foram observadas na cúpula, e estudos indicam que há troca de água entre a cratera e o ambiente ao redor.

As Ilhas Marshall, com uma altitude média de apenas dois metros, enfrentam crescente vulnerabilidade devido à elevação do nível do mar e eventos climáticos extremos. Cientistas alertam que tufões e inundações podem erodir a área ao redor da cúpula, comprometendo sua capacidade de conter os resíduos radioativos por longos períodos.

Enquanto o plutônio-239 enterrado na cratera possui uma meia-vida de cerca de 24 mil anos, a cúpula, com menos de cinquenta anos, já apresenta sinais de deterioração. Pesquisadores ressaltam que estruturas desse tipo não podem ser abandonadas, especialmente em ambientes propensos a inundações e tempestades.

Após o retorno dos habitantes a Enewetak, os Estados Unidos consideraram suas obrigações em relação ao programa nuclear cumpridas, afirmando que a cúpula está sob jurisdição das Ilhas Marshall. No entanto, para essa pequena nação insular, assumir a responsabilidade por uma estrutura que abriga resíduos contaminados representa um desafio econômico e técnico significativo.

Assim, a ironia persiste: os Estados Unidos confinaram parte do legado de seus testes nucleares sob uma cúpula de concreto, mas a deixaram em uma cratera sem revestimento, próxima ao oceano, que agora está em ascensão.

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