Expansão e sustentabilidade: o paradoxo dos data centers no Brasil
Data centers no Brasil: potencial econômico e desafios socioambientais em pauta
A inteligência artificial e o processamento de dados estão moldando o futuro da tecnologia, sendo os data centers fundamentais para essa evolução. No Brasil, essas infraestruturas são vistas como uma oportunidade para alavancar a economia e posicionar o país como um polo tecnológico.
Em maio de 2025, o ministro da Fazenda apresentou a Política Nacional de Data Centers, que visa regulamentar e incentivar a instalação dessas estruturas. Em setembro do mesmo ano, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata) foi proposto, mas caducou em fevereiro deste ano sem a devida tramitação no Senado.
Até novembro do ano passado, o Brasil contava com 197 data centers, o maior número na América Latina. Contudo, a instalação de novas fazendas digitais tem gerado controvérsias. Recentemente, moradores do Vale do Paraíba manifestaram-se contra um data center em Pindamonhangaba, que exigiria um investimento de R$ 5 bilhões e teria uma capacidade inicial de 150 MW, com potencial para expansão.
As preocupações levantadas pela comunidade incluem a falta de transparência no licenciamento ambiental e a necessidade de estudos sobre os impactos socioambientais do projeto. Situações semelhantes têm ocorrido em outras regiões, como no Ceará, onde o Ministério Público Federal questionou o licenciamento do Data Center Pecém, associado ao TikTok.
No Rio Grande do Sul, a instalação de um data center pela Scala Data Center também gerou debates. Apesar da promessa de criação de 3 mil empregos, a obra não foi bem recebida pela comunidade local, que ficou sabendo do projeto após enchentes que afetaram a região.
Um ponto comum nas críticas é a percepção de que as empresas e o governo estão distantes dos princípios de sustentabilidade. As preocupações ambientais giram em torno do consumo excessivo de energia e água, levantando a questão da viabilidade de se manter essas infraestruturas de forma sustentável.
Soluções sustentáveis em foco
O setor tem buscado alternativas sustentáveis para o funcionamento dos data centers. Tecnologias como resfriamento líquido e o uso de fontes de energia renováveis estão em alta. Na Europa, a Equinix, por exemplo, reaproveita o calor gerado por suas operações para aquecer hospitais e outros edifícios, contribuindo para a redução de emissões de carbono.
No Brasil, a empresa tem investido no reaproveitamento da água da chuva e em sistemas de água fechados, que equilibram o consumo entre as áreas administrativas e operacionais. Essa abordagem, segundo os executivos do setor, deve ser adaptada às especificidades de cada região para garantir a eficácia das práticas sustentáveis.
Outras empresas, como a Odata e a Ascenty, também têm adotado práticas semelhantes, enfatizando a importância do gerenciamento ambiental. A Ascenty, por exemplo, destaca que o consumo de água de seu maior data center é equivalente ao de apenas 16 residências, devido ao seu modelo de operação eficiente.
Os líderes do setor reconhecem a necessidade de um compromisso contínuo com a sustentabilidade, não apenas para atender às exigências de clientes, mas como parte de uma responsabilidade corporativa mais ampla. A autorregulação do mercado, impulsionada pela demanda de grandes empresas de tecnologia, é vista como um caminho para garantir padrões elevados de responsabilidade ambiental.
A Ascenty, por exemplo, realiza um monitoramento rigoroso de sua cadeia de suprimentos, assegurando que seus fornecedores sigam práticas sustentáveis. No entanto, a visão de que apenas atender às normas atuais não é suficiente é compartilhada por outros executivos do setor, que defendem a necessidade de metas de longo prazo para enfrentar os desafios ambientais.
Diálogo e regulamentação: desafios a serem superados
O diretor de expansão da Odata, Vitor Caram, acredita que a falta de diálogo entre as partes interessadas é um dos principais obstáculos para a instalação de novos data centers. Ele ressalta que muitas pessoas que têm aversão ao tema não participam das discussões, dificultando a busca por soluções colaborativas.
Enquanto isso, a regulamentação segue como um tema pendente. O Redata, que prometia trazer clareza e benefícios fiscais para o setor, não foi votado a tempo
