Febre aftosa na China revela vulnerabilidades e pode abrir oportunidades para o Brasil

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A produção bovina na China enfrenta desafios significativos, impactando o mercado global.

A China abateu cerca de 51 milhões de cabeças de gado em 2025, resultando em uma produção de pouco mais de 8 milhões de toneladas de carne bovina. No entanto, o consumo anual no país alcança quase 11 milhões de toneladas, criando uma lacuna que torna a China o maior importador de carne bovina do mundo.

Com aproximadamente 30% de seu consumo dependente de importações, o governo chinês impôs cotas e sobretaxas que podem chegar a 55% para limitar as compras externas, dificultando a situação do mercado interno.

A recente notícia sobre a febre aftosa nos rebanhos chineses revela não apenas um problema sanitário, mas também a tensão entre a necessidade de aumentar a produção e as limitações do sistema produtivo. Essa dinâmica afeta diretamente o Brasil, que pode ser um dos principais beneficiários dessa demanda crescente.

A produção bovina na China é complexa e caracterizada por uma estrutura fragmentada. Mais de 98% das propriedades são pequenas, com cerca de 15 milhões de pequenos produtores que frequentemente abatem menos de 10 animais por ano, mas ainda assim são responsáveis por mais da metade da produção total. Essa estrutura pulverizada resulta em baixa padronização e controla sanitário menos eficiente.

Apesar de uma taxa de desfrute que varia de 30% a 45% em sistemas mais intensivos, a produtividade por animal na China é inferior à do Brasil. A China pode abater mais, mas a quantidade de carne produzida por animal é limitada, demonstrando uma clara limitação estrutural no sistema produtivo. A fragmentação aumenta os riscos e reduz o controle sanitário.

Recentemente, a pressão sobre os produtores aumentou, com cerca de 70% operando com prejuízo, levando muitos a liquidar seus rebanhos e realizar abates antecipados. Isso resulta em um sistema de produção mais vulnerável a problemas sanitários.

Para tentar equilibrar a situação, o governo chinês limitou as importações. Consequentemente, o Brasil tem trabalhado com volumes restritos, mas simplesmente fechar o mercado não resolve os problemas estruturais e pode, na verdade, agravá-los.

A experiência anterior com a Peste Suína Africana serve como um alerta. Após perdas significativas, a China implementou um modelo mais verticalizado na suinocultura; no entanto, essa transição na bovinocultura ainda está em andamento.

Quando a sanidade do rebanho falha, o mercado externo se torna uma solução necessária, não apenas uma opção. Se a febre aftosa se espalhar, a prioridade da China será garantir o abastecimento, o que pode resultar em um aumento nas importações.

Esse cenário apresenta oportunidades para o Brasil, que possui uma produção em escala, uma oferta regular e um sistema sanitário reconhecido. No entanto, essa oportunidade não é uma garantia de sucesso, mas sim um espaço a ser aproveitado.

A situação atual deixa uma lição clara: não há atalhos para a segurança alimentar. Quando a produção enfrenta dificuldades, o mercado se ajusta, e aqueles que estão preparados para responder ocupam o espaço deixado por outros.

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