Futurista Neil Redding alerta no SXSW: é preciso orquestrar o futuro ou ser substituído por ele
A inteligência artificial redefine o papel das empresas e a liderança organizacional.
A tecnologia continua a ser utilizada nas empresas principalmente como um instrumento de eficiência. Planilhas, softwares e automação aceleraram diversas tarefas, mas a estrutura de decisão ainda permanece essencialmente humana. Recentemente, um futurista argumentou que esse modelo está entrando em declínio.
A mudança não se limita apenas ao avanço da inteligência artificial (IA), mas também à velocidade com que ela realiza tarefas. Em muitas organizações, a execução já acontece mais rapidamente do que as empresas conseguem tomar decisões.
<p“O que quebrou recentemente nas empresas não foi a estratégia, mas sim a velocidade”, afirmou o futurista. Ele descreve esse fenômeno como “clock drift”, que refere-se ao descompasso entre a rapidez com que sistemas baseados em IA conseguem agir e o ritmo mais lento dos processos corporativos tradicionais, que ainda dependem de revisões, comitês e aprovações.
Esse descompasso gera uma nova forma de frustração organizacional. Ideias podem ser desenvolvidas em poucas horas com a ajuda da inteligência artificial, mas podem levar semanas para serem aprovadas nas estruturas de governança das empresas.
Esse cenário cria riscos estratégicos. “Quando a execução ocorre mais rapidamente do que a tomada de decisão, outra organização pode implementar sua estratégia antes mesmo de você aprová-la”, alertou.
Para o futurista, a principal mudança em curso não é tecnológica, mas conceitual. Até recentemente, a inteligência artificial era vista como uma ferramenta para executar tarefas específicas, como resumir documentos ou gerar relatórios. Esse paradigma, segundo ele, está se transformando. “A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta para se tornar um participante”, destacou.
A diferença está na crescente capacidade de raciocínio e colaboração com humanos. Em vez de apenas responder a comandos, sistemas mais avançados conseguem analisar informações, propor alternativas e participar do processo de tomada de decisão.
Redding ilustrou essa mudança com dois tipos de interação com a IA. No primeiro, o usuário solicita que o sistema execute uma tarefa simples, como transformar dados em um slide. No segundo, a IA é convidada a participar do raciocínio estratégico, avaliando argumentos a favor ou contra uma decisão de mercado.
No primeiro caso, a tecnologia atua como uma ferramenta. No segundo, como um parceiro analítico. “Quando tratamos a IA como ferramenta, pedimos tarefas. Quando a tratamos como participante, cocriamos resultados”, apontou.
Papel do contexto
Outro ponto central da apresentação foi o conceito de contexto compartilhado. A eficácia da inteligência artificial nas empresas depende menos da tecnologia em si e mais da qualidade das informações disponíveis para os sistemas.
Modelos de IA estão cada vez mais capacitados para processar grandes volumes de informações e realizar tarefas complexas por períodos prolongados. Essa evolução permite que participem de projetos completos, e não apenas de etapas isoladas. Contudo, é necessário que tenham acesso ao que se chama de contexto organizacional, que inclui dados sobre clientes, decisões estratégicas, histórico de projetos e conhecimento interno das empresas. “Esse contexto é o verdadeiro diferencial competitivo de um negócio”, ressaltou.
Sem acesso a essas informações, agentes de IA podem tomar decisões incoerentes ou gerar respostas desalinhadas com a estratégia corporativa. Com o contexto adequado, eles se tornam capazes de colaborar com humanos de forma mais eficaz. Redding chamou essa prática de “engenharia de contexto”, uma disciplina emergente que busca estruturar e organizar o conhecimento de uma empresa de forma acessível para pessoas e sistemas de IA.
Novo modelo de liderança
Com a inteligência artificial atuando como participante nas organizações, o modelo tradicional de liderança também precisa se adaptar. Segundo o futurista, ocupar uma posição estratégica em um ambiente onde humanos e sistemas inteligentes colaboram exige um papel diferente do que foi exercido nas últimas décadas.
Ele usa o termo orquestração para descrever essa nova função. A analogia vem da música, onde o maestro não executa cada nota nem controla cada instrumento individualmente, mas sim coordena o conjunto, ajusta o ritmo e garante que todos os participantes produzam um resultado harmonioso.
Nas empresas do futuro, os líderes terão uma função semelhante. “A liderança passa a ser a orquestração das dinâmicas entre participantes”, afirmou. “Humanos, inteligências artificiais e agentes automatizados estarão trabalhando juntos no mesmo sistema.”
Isso implica monitorar continuamente as capacidades dos diferentes participantes, tanto humanos quanto sistemas, e ajustar responsabilidades conforme essas capacidades evoluem.
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