Futuro do cargo de CIO em debate: Executivos analisam a resistência da posição
A evolução do papel do CIO e as transformações na tecnologia nas empresas
Afrânio Lamy Spolador, hoje diretor de tecnologia e inovação do Grupo EcoRodovias, começou sua carreira em um ambiente de TI isolado e fechado. Naquela época, a tecnologia era vista como um recurso separado, com os dados sendo guardados em um Centro de Processamento de Dados (CPD) que funcionava como uma caixa-preta. O papel do profissional de TI era considerado distinto, e a comunicação com outras áreas da empresa era limitada.
Com o passar dos anos, a estrutura das empresas evoluiu. Spolador observa que atualmente as equipes de tecnologia trabalham lado a lado com outras áreas, como jurídico e recursos humanos, em um ambiente mais colaborativo. Essa mudança reflete como a tecnologia se tornou parte integrante da estratégia empresarial, ao invés de ser uma função isolada.
Ao longo de 35 anos, diversas previsões foram feitas sobre o futuro do cargo de CIO. Consultorias previram que a tecnologia se tornaria uma commodity, que o orçamento migraria para as áreas de negócios e que a computação em nuvem diminuiria a necessidade de sistemas complexos. No entanto, essas previsões não se concretizaram, e o papel do CIO se transformou, especialmente com a ascensão da inteligência artificial.
João Vicente Alvarenga, diretor-executivo de TI e digital do Grupo Fleury, descreve a antiga configuração da TI como um “Olimpo”, onde decisões eram tomadas de forma isolada e sem transparência. O Brasil desenvolveu sua própria trajetória tecnológica, desde a aquisição do primeiro computador em 1957 até a criação de instituições que regulamentaram o setor. Essa evolução moldou a percepção da tecnologia como um recurso crítico, mas muitas vezes relegado a uma função de suporte.
A vice-presidente de tecnologia da informação da TIM Brasil, Auana Mattar, testemunhou a transformação do papel da TI, que passou de um suporte técnico para um componente estratégico essencial. A digitalização e a necessidade de integração entre as áreas de negócios e tecnologia foram fatores fundamentais para essa mudança.
O conceito de que a TI não importa, popularizado em 2003 por Nicholas Carr, gerou reações no mercado. Bill Gates, em resposta, argumentou que a informação e a tecnologia são fundamentais para a competitividade das empresas. Apesar das previsões de que o papel do CIO estaria em declínio, a realidade mostrou que a função se adaptou e se tornou mais relevante, especialmente com a crescente importância da tecnologia nas decisões empresariais.
Em 2012, uma previsão indicou que os diretores de marketing gastariam mais em tecnologia do que os CIOs. No entanto, essa expectativa não se concretizou, pois as áreas de marketing perceberam a necessidade de colaboração com a TI para implementar suas estratégias. O orçamento de tecnologia continuou sob a responsabilidade dos CIOs, que se tornaram essenciais para alinhar a tecnologia às necessidades de negócios.
Os executivos entrevistados concordam que o papel do CIO evoluiu, e agora é visto como um orquestrador que deve conectar a tecnologia aos objetivos estratégicos da empresa. A habilidade de mapear processos e gerenciar projetos se tornou crucial para o sucesso na função. A democratização do conhecimento técnico, que anteriormente era restrito aos profissionais de TI, também contribuiu para essa transformação.
Atualmente, a pressão sobre os CIOs aumentou com a introdução de novas tecnologias, como a inteligência artificial. A necessidade de governança e controle é vista como uma forma de proporcionar liberdade e descentralização nas operações. O uso de ferramentas de IA sem supervisão formal, conhecido como shadow AI, é uma preocupação crescente para as empresas, que precisam encontrar um equilíbrio entre inovação e segurança.
Os CIOs de hoje devem ser adaptáveis e críticos, capazes de lidar com a complexidade do ambiente tecnológico. A transformação contínua do papel exige que os profissionais se mantenham atualizados e desenvolvam habilidades que vão além do conhecimento técnico. A capacidade de entender o negócio e a estratégia é fundamental para garantir que a tecnologia continue a agregar valor às organizações.
Enquanto o futuro do cargo de CIO permanece incerto, sua evolução é um reflexo das mudanças na tecnologia e na forma como as empresas operam. O que antes era uma função isolada agora é central para o sucesso organizacional, e a habilidade de se adaptar e inovar será crucial para os CIOs que buscam permanecer relevantes em um mundo em constante mudança.