Guerra no Irã coloca em risco o agronegócio brasileiro
Brasil enfrenta desafios com a dependência de fertilizantes em meio a tensões no Irã.
O Brasil se destaca como um dos principais exportadores de alimentos globalmente, mas enfrenta uma contradição significativa: é também o maior importador de fertilizantes do mundo. Essa dependência se torna ainda mais preocupante em meio a conflitos internacionais, especialmente no Oriente Médio.
Recentemente, o presidente dos Estados Unidos anunciou um cessar-fogo no conflito com o Irã, que havia sido declarado em fevereiro. Essa mudança de postura ocorre em um contexto onde a estabilidade no estreito de Ormuz, uma rota comercial vital, é crucial para o transporte de fertilizantes e outros produtos.
Para o Brasil, que depende fortemente do agronegócio, a interrupção no fornecimento de fertilizantes pode ter consequências graves. O país não produz a quantidade necessária de fertilizantes para sustentar sua agricultura, que representa 30% do PIB e é altamente dependente de insumos importados.
“A causa do problema é que temos um país que tem 30% do PIB sustentado pela agricultura, mas depende de mais de 90% de fertilizante importado”, afirma um especialista do setor.
Na mesma data do anúncio do cessar-fogo, associações de agricultores em Pernambuco protestaram pedindo apoio governamental para garantir o fornecimento de fertilizantes, evidenciando a preocupação com o impacto da alta nos preços dos insumos agrícolas.
O efeito cascata dessa alta nos preços pode ser sentido em toda a cadeia produtiva. Com milho e soja como base da ração animal, um aumento nos custos dos fertilizantes pode resultar em preços mais altos para produtos como frango, ovos e carne bovina nos supermercados brasileiros.
O boletim Focus do Banco Central indica um aumento nas expectativas de inflação, principalmente em relação aos alimentos, prevendo uma alta de 4,6% até o final do ano, em comparação com 1,4% em 2025.
Desafios da dependência externa
O Brasil, apesar de ser um gigante na exportação de alimentos, enfrenta fragilidades em sua cadeia de suprimentos de fertilizantes. Atualmente, o país importa cerca de 75% dos defensivos agrícolas e depende da Rússia e do Irã para a maioria de seus insumos.
Historicamente, a Rússia tem sido a maior fornecedora de fertilizantes, mas a instabilidade provocada por conflitos recentes tem levado o país a redirecionar seus mercados. Enquanto isso, o Irã se torna um parceiro estratégico, especialmente na importação de ureia, essencial para a agricultura.
Em 2025, o Brasil importou US$ 72 milhões em fertilizantes do Irã, com a ureia representando uma parte significativa. Se o fornecimento for interrompido, o Brasil terá que competir com outros países, como Índia e Estados Unidos, elevando ainda mais os preços globais.
A relação comercial com o Irã
A relação comercial entre Brasil e Irã tem se fortalecido, com um sistema de troca que beneficia ambos os lados. O Brasil exporta grandes volumes de cereais para o Irã, enquanto importa fertilizantes em um modelo de barter, que facilita o comércio e reduz custos de transporte.
No entanto, a instabilidade na região, como os recentes ataques a instalações petroquímicas no Irã, representa uma ameaça física ao fornecimento de ureia, colocando em risco a produção agrícola brasileira.
“Nós não temos alternativa em relação à ureia. Para a próxima safra, ainda não devemos ter esse problema, mas em 2027 vai ser uma tragédia”, alerta um especialista do setor.
Perspectivas e soluções
Se o fornecimento de ureia for interrompido, a situação dos produtores pode se agravar. Com custos de produção já elevados e um cenário econômico desafiador, muitos agricultores enfrentam dificuldades financeiras.
O aumento dos preços dos fertilizantes, combinado com a queda nos preços das commodities, pressiona ainda mais as margens de lucro do agronegócio. A recente reforma tributária também afetou a competitividade, aumentando os custos para os produtores.
Para mitigar esses desafios, o Ministério da Agricultura está buscando alternativas, como um acordo com a Turquia para facilitar o trânsito de cargas e a reativação de unidades de produção de fertilizantes pela Petrobras, que espera atender até 35% da demanda nacional nos
