Inteligência artificial se torna ferramenta de guerra para disseminação de vídeos falsos
Clipes gerados por IA transformam a diplomacia digital e a propaganda política.
Especialistas acreditam que os clipes sofisticados gerados por inteligência artificial podem representar uma forma poderosa de diplomacia na internet, com potencial para impactar a percepção pública de maneira significativa.
A intenção por trás da criação desses conteúdos é controlar a informação e confundir a população, projetando uma imagem de força que, muitas vezes, não reflete a realidade. As redes sociais estão repletas de vídeos fabricados, que incluem ataques militares fictícios e representações distorcidas de líderes mundiais.
Esses conteúdos têm como objetivo gerar uma sensação de controle e vitória militar, mesmo que essa vitória seja apenas uma construção imaginária.
O avanço da tecnologia tem facilitado esse processo, permitindo que cenários fictícios sejam criados em questão de minutos. Líderes políticos são frequentemente transformados em personagens de narrativas artificiais que rapidamente se tornam memes globais, circulando amplamente, inclusive em canais oficiais.
A inteligência artificial também é utilizada para encenar futuros alternativos, como evidenciado por um vídeo viral que transformou Gaza em um resort virtual, compartilhado por figuras políticas de destaque.
Além disso, países como a Rússia utilizam essa tecnologia para criar vídeos que retratam rendições e derrotas do exército ucraniano que nunca ocorreram, demonstrando a criatividade ilimitada desses conteúdos.
Estratégia não é nova
Apesar das novas ferramentas disponíveis, a estratégia de usar animações e vídeos como propaganda não é inédita. Desde antes da Segunda Guerra Mundial, esse tipo de produção já era utilizado em contextos políticos e militares.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o uso massivo e estratégico de animações se tornou comum entre governos, especialmente nos Estados Unidos, na Alemanha nazista, no Japão e na antiga União Soviética.
A animação evoluiu de uma forma de entretenimento para uma poderosa arma de propaganda. Regimes autoritários, como o de Adolf Hitler, usaram desenhos animados para manipular emoções e mobilizar massas, criando inimigos fictícios.
Os Estados Unidos, por sua vez, contrataram estúdios renomados para produzir animações que combatem ideologias adversárias. Durante a Guerra Fria, personagens animados ajudaram a disseminar ideologias rivais, refletindo a adaptação da propaganda às linguagens da cultura de massa.
Com o advento da inteligência artificial, essas produções se tornaram mais baratas, rápidas e fáceis de espalhar, ampliando ainda mais seu alcance e eficácia.
Guerra como produto “consumível”
Os vídeos fabricados pelo Irã são considerados parte de uma guerra de narrativas, onde histórias leves e aparentemente inofensivas suavizam a violência e transformam os horrores do conflito em produtos consumíveis.
De acordo com especialistas, essa estratégia reflete uma transformação na lógica dos conflitos, onde as guerras são travadas não apenas em campos de batalha, mas também nas redes sociais.
“Propagandas de Estados, especialmente em contextos de conflito, sempre existiram. Mas o que a gente vem percebendo nos últimos anos é que essas guerras estão sendo travadas não só nos territórios, mas principalmente nas redes sociais”, afirma um especialista na área.
Os governos buscam desmoralizar o inimigo e confundir o debate público para conquistar apoio popular. Nesse contexto, a inteligência artificial atua como uma camada adicional na comunicação política, facilitando a criação de vídeos e animações que visam viralizar nas redes sociais.
Esses conteúdos têm sido chamados de “slopaganda”, referindo-se a vídeos gerados por inteligência artificial que, embora possam ser engraçados ou absurdos, possuem um alto potencial de circulação.
“Por meio do engajamento desses vídeos fofos e aparentemente inofensivos, governos conseguem driblar as políticas de moderação das plataformas e distribuir suas narrativas globalmente”, explica um pesquisador.
Sem compromisso com a realidade, essas produções focam no impacto emocional, buscando engajar o público e incitar sentimentos de raiva ou ódio em relação ao inimigo, ao mesmo tempo que fomentam orgulho pela causa escolhida.
Nesse cenário, a credibilidade se torna menos relevante do que o número de cliques, e a ausência de verdade pode ser percebida como uma mera brincadeira.
