Kassio elabora modelo de registro de pesquisas enquanto especialistas alertam para riscos de manipulação
Novas regras para registro de pesquisas eleitorais estão em avaliação pelo TSE.
BRASÍLIA, DF – O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, está desenvolvendo um novo modelo de registro para pesquisas eleitorais. Neste modelo, os institutos deverão preencher um formulário detalhando, entre outras informações, o perfil dos eleitores que pretendem entrevistar.
Uma das propostas em análise inclui a exigência de que as empresas informem previamente os bairros onde as pesquisas serão realizadas. Especialistas alertam que essa medida pode facilitar interferências indevidas e manipulação dos resultados.
Essa iniciativa é parte de um esforço contínuo de Kassio para estabelecer diretrizes claras para as pesquisas eleitorais, especialmente após a censura a um levantamento da Atlas/Bloomberg e a proposta de um “selo de acurácia” para os institutos que apresentarem resultados próximos aos das urnas. Ambas as ações geraram críticas de empresas e especialistas do setor.
O presidente do TSE acredita que o protocolo atual de registro é genérico. Embora os institutos sejam obrigados a fornecer dados sobre a metodologia e o perfil das amostras, falta uma sistematização que torne essas informações mais acessíveis.
Kassio propõe que as principais informações de cada pesquisa sejam disponibilizadas em uma plataforma no site do TSE, com um layout que facilite a consulta por candidatos e eleitores.
Em discussões internas, ele destacou que o novo formulário é uma simples melhoria administrativa e que não haverá interferência do tribunal no conteúdo das pesquisas, exceto em casos de judicialização.
Além disso, o ministro ressaltou a necessidade de que os institutos justifiquem a escolha de áreas geográficas específicas para a realização das entrevistas, garantindo que essa informação seja pública.
Outra questão que pode ser incluída no questionário é se os institutos tomaram medidas para evitar a participação de robôs nas pesquisas online.
Há também a possibilidade de questionar os institutos sobre a intenção de mostrar aos entrevistados materiais multimídia relacionados a candidatos, um tema que será debatido pelo plenário do TSE em agosto.
Recentemente, uma pesquisa que indicou uma queda nas intenções de voto para o senador Flávio Bolsonaro foi censurada por Kassio, que alegou que houve uma “indução grave de percepção negativa” sobre o pré-candidato.
A diretora do Datafolha, Luciana Chong, critica a proposta, argumentando que o novo formulário adiciona burocracia sem aumentar a transparência, já que os dados da amostra são acessíveis atualmente.
Ela expressa preocupação com a exigência de informar previamente os bairros onde as pesquisas serão realizadas, afirmando que isso poderia permitir que campanhas tentem interferir na pesquisa, comprometendo sua integridade.
Institutos de pesquisa que conduzem entrevistas presenciais já implementam medidas para evitar que grupos políticos influenciem os entrevistadores. A divulgação prévia das regiões de pesquisa poderia agravar esse problema.
João Francisco Meira, coordenador do comitê de opinião pública da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa, alerta que essa medida colocaria os entrevistadores em uma posição vulnerável a hostilidades.
Ele também menciona que a iniciativa pode resultar em um aumento de judicializações de pesquisas eleitorais, com ações de má-fé visando atrasar a divulgação de resultados.
A cientista política Maria Tereza Sadek critica a ideia de que a Justiça Eleitoral deve fiscalizar os institutos de pesquisa, ressaltando que o foco do TSE deve ser a organização de eleições justas.
Os especialistas também se opõem à proposta de Kassio de premiar institutos cujas pesquisas se aproximem dos resultados oficiais. A minuta inicial previa um selo de acerto para levantamentos realizados nos sete dias anteriores à eleição, mas agora o ministro considera restringir isso para pesquisas feitas 48 horas antes do pleito.
