Letramento de dados distingue empresas que utilizam IA daquelas que obtêm lucro com a tecnologia
A importância do letramento em dados na era da inteligência artificial
Com a crescente adoção de inteligência artificial nas empresas, a discussão sobre letramento em dados se torna cada vez mais relevante. Esse conceito refere-se à habilidade de coletar, interpretar, questionar e utilizar informações de maneira crítica no ambiente de trabalho. Especialistas alertam que a falta dessa preparação pode levar a um aumento de riscos, em vez de gerar valor real para os negócios.
Angelika Klidas, professora da Universidade de Ciências Aplicadas de Amsterdã e reconhecida internacionalmente por seu trabalho em letramento em dados e inteligência artificial, destaca a necessidade de um enfoque mais humano na implementação dessas tecnologias. Em sua visão, as empresas frequentemente cometem o erro de priorizar a tecnologia em detrimento das pessoas, o que pode resultar em soluções ineficazes e arriscadas.
Sem diretrizes claras sobre segurança e uso responsável, a adoção de IA pode se tornar problemática. Essa preocupação é refletida em iniciativas como o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (2024-2028) e a Lei de Inteligência Artificial da União Europeia, que buscam equilibrar investimento em tecnologia com regras de governança adequadas.
O erro de colocar a tecnologia antes das pessoas
Angelika enfatiza que um dos principais equívocos das empresas é permitir que a tecnologia guie as decisões, ao invés de envolver as pessoas nesse processo. Ela critica a aceitação do que é conhecido como “shadow IT”, onde soluções de IA são utilizadas sem supervisão adequada. Essa prática pode esconder riscos significativos que precisam ser geridos.
Agentes de IA crescem sem governança
A falta de letramento em dados também se manifesta no crescimento descontrolado de agentes de IA nas empresas. Funcionários criam ferramentas pessoais sem a devida governança, o que pode impedir que essas inovações sejam compartilhadas e reaproveitadas por toda a equipe. Exemplos de como esses agentes podem gerar economia significativa de tempo e recursos são comuns em setores como o jurídico, onde a triagem de e-mails pode ser otimizada por IA.
Maturidade de dados se constrói
Para que uma empresa esteja pronta para um investimento mais robusto em IA, Angelika propõe um modelo de três estágios. O primeiro estágio, “momentum”, é caracterizado por ganhos de produtividade. O segundo, o retorno sobre o investimento, ocorre quando as ideias geradas se transformam em cases de negócios. O terceiro estágio, “retorno sobre o futuro”, envolve uma visão estratégica que considera dados externos para obter vantagem competitiva.
Letramento não pode ser padrão
Ao contrário da governança de dados, que exige conformidade em segurança e privacidade, o letramento em dados deve ser adaptado às necessidades específicas de cada função dentro da empresa. Angelika alerta que aplicar o mesmo treinamento a todos os colaboradores geralmente resulta em falhas, pois diferentes áreas demandam diferentes níveis de conhecimento.
A educadora também destaca a importância de apoiar o letramento com práticas como catalogação de dados, que ajudam a dar visibilidade ao fluxo de informações. Contudo, essa visibilidade não substitui a necessidade de um bom letramento, que é essencial para entender o impacto das informações no resultado final.
A falta de letramento pode afetar diretamente a segurança e a qualidade da informação. Angelika compartilha um exemplo de viés racial que encontrou ao testar uma IA, ressaltando a necessidade de treinar as equipes para questionar e entender as respostas fornecidas pelos sistemas.
Como construir o retorno de investimento
Para líderes que buscam avaliar se seus investimentos em dados e IA estão gerando resultados, Angelika sugere que se observe um relatório recente sobre as empresas mais avançadas na área. Essas organizações trabalham em cinco frentes: infraestrutura de IA, educação e desenvolvimento de habilidades, foco no cliente, inovação e governança voltada à segurança e privacidade.
Ela enfatiza a importância de uma abordagem holística, onde cada elemento é considerado antes de implementar novas soluções tecnológicas. Durante sua visita ao Brasil para um evento sobre letramento em dados, Angelika observa que até o uso básico de ferramentas como planilhas é uma forma inicial de letramento, e está interessada em compreender melhor a realidade brasileira nesse contexto.