Lodo de tratamento de água é transformado em fertilizante de liberação lenta
Inovação transforma lodo de ETAs em fertilizante sustentável.
Uma nova tecnologia desenvolvida pela Embrapa, em colaboração com a Sabesp, promete transformar o lodo gerado em estações de tratamento de água (ETAs) em um fertilizante de liberação lenta. Este processo nanotecnológico utiliza um método hidrotérmico para neutralizar o alumínio tóxico presente no resíduo, ao mesmo tempo que incorpora nutrientes essenciais como nitrogênio e potássio, convertendo um passivo ambiental em um insumo agrícola valioso.
O lodo de ETA, que frequentemente apresenta composição variável e altos níveis de sais de alumínio, tem seu aproveitamento limitado na agricultura. A inovação visa superar essas barreiras, produzindo grânulos de fertilizante que também atuam como um meio para microrganismos benéficos às plantas, potencializando a fertilização e a proteção biológica.
Após resultados promissores em testes laboratoriais e em casa de vegetação, o próximo passo é buscar parcerias com empresas para implementar um projeto-piloto industrial, ampliando a produção e avaliando a eficácia do fertilizante em larga escala.
O lodo de ETA se distingue do lodo de esgoto, que possui maior carga orgânica e já é utilizado na agricultura. O alumínio livre, presente no lodo de ETA, pode ser prejudicial ao crescimento das plantas, afetando a absorção de nutrientes essenciais. A tecnologia desenvolvida busca transformar esse resíduo em uma matéria-prima valiosa, agregando valor a um material que, historicamente, representa custos elevados de manejo e descarte.
O projeto, coordenado pela Embrapa Instrumentação, envolveu a colaboração de diversas unidades da Embrapa e teve um investimento de mais de R$ 2,7 milhões ao longo de quatro anos, contando com uma equipe multidisciplinar dedicada.
A Sabesp, responsável pela geração de cerca de 124 mil toneladas de lodo desidratado anualmente em suas 208 ETAs, enfrenta desafios logísticos e financeiros significativos. O transporte desse material, que pode exigir até 16 viagens diárias nas maiores unidades, gera um custo médio de R$ 300 por tonelada. A busca por alternativas sustentáveis para o reaproveitamento do lodo é uma prioridade para a companhia.
Os pesquisadores desenvolveram uma rota de conversão hidrotérmica que produz concentrados zeolíticos a partir do lodo de ETA. Esses concentrados são utilizados na formulação de grânulos de fertilizante, que liberam nitrogênio e potássio de forma controlada. O tratamento reorganiza as partículas do resíduo, formando cristais de sodalita que retêm o alumínio, tornando o insumo seguro para uso agrícola.
Experimentos com plantas-modelo, como azevém e capim-piatã, demonstraram que a aplicação do fertilizante pode aumentar a eficiência agronômica, resultando em maior produção de biomassa e melhor absorção de nutrientes. A pesquisa também incluiu avaliações químicas para garantir a disponibilidade de macronutrientes e micronutrientes, confirmando que o nitrogênio não se perde durante o processo.
Além de sua função como fertilizante, a formulação foi testada como veículo para microrganismos que promovem o crescimento vegetal. Embora não tenha sido adequada para todos os tipos de fungos, a bactéria Bacillus megaterium demonstrou compatibilidade, podendo favorecer o crescimento das plantas.
Pesquisas adicionais na Embrapa Meio Ambiente avaliaram a incorporação de lodo de ETA em solos tropicais, buscando determinar as concentrações adequadas para seu uso in natura. Os resultados indicaram que o milho tolerou doses de até 50% de lodo, enquanto o feijão apresentou sensibilidade a concentrações superiores a 25%. A aplicação de lodo em doses adequadas pode viabilizar sua reutilização na agricultura, contribuindo para a sustentabilidade do setor.
Os estudos em andamento têm o potencial de não apenas transformar um resíduo problemático em um insumo valioso, mas também de aumentar a eficiência dos fertilizantes utilizados na agricultura, reduzindo a dependência de importações e minimizando perdas por volatilização.