Médico denuncia uso de imagem clonada por IA em vendas de curas milagrosas no YouTube e alerta para riscos a idosos
Médico denuncia uso indevido de sua imagem por canais no YouTube
O médico otorrinolaringologista Hélio Brasileiro teve sua identidade e imagem clonadas por meio de inteligência artificial, resultando na criação de diversos canais no YouTube que utilizam sua imagem sem autorização.
Esses canais, que totalizam pelo menos cinco, têm veiculado conteúdos alarmistas sobre saúde, visando engajar principalmente o público idoso. As informações apresentadas são frequentemente enganosas e podem desencorajar o acompanhamento médico adequado.
De acordo com especialistas, essa prática pode ser classificada como falsidade ideológica, falsa identidade e exercício ilegal da medicina, além de crimes cibernéticos e ofensas à honra. A identificação de vídeos que replicam a imagem de outros médicos também foi observada, evidenciando uma rede maior de desinformação.
Os vídeos analisados abordam temas como os riscos de banhos quentes e tratamentos naturais que substituiriam medicamentos prescritos. A pesquisa revela que esses canais acumulam centenas de milhares de seguidores, e muitos deles operam sob títulos e roteiros idênticos, sugerindo que podem ser geridos pela mesma pessoa ou grupo.
Um exemplo notável é o vídeo intitulado “quatro queijos que podem destruir sua saúde após os 60 anos”, que foi replicado em vários canais em sequência. Essa repetição de conteúdo é uma tática comum entre os canais, que se estende a pelo menos 20 outros identificados na investigação.
Uma pesquisa recente indicou que canais que utilizam inteligência artificial para discutir saúde somam mais de 70 milhões de visualizações. Após a divulgação de uma reportagem sobre esses canais, algumas páginas foram removidas, mas muitos clones de Hélio Brasileiro permanecem ativos.
‘Denunciei vários vídeos de um canal. Depois vi que tem inúmeros outros’
Hélio Brasileiro, que também é youtuber com um canal que conta com 270 mil inscritos, expressou sua surpresa ao descobrir que sua imagem estava sendo utilizada em vídeos enganosos. Ele reativou seu canal durante a pandemia para combater a desinformação sobre vacinas e cuidados de saúde.
Após perceber a extensão do problema, ele registrou denúncias tanto no YouTube quanto na Polícia Civil de São Paulo, que investiga o caso sob alegações de falsidade ideológica e tentativa de difamação. A delegada responsável destacou a gravidade da situação, que pode causar danos à saúde pública.
Além de buscar a remoção dos vídeos, o médico enfatiza a importância de informar o público sobre os riscos de desinformação médica, especialmente para os idosos, que podem ser mais suscetíveis a seguir conselhos errôneos.
‘Quem cria isso não tem empatia’
O médico expressou preocupação com os danos que esses vídeos podem causar, como a desmotivação para o acompanhamento médico e a promoção de tratamentos ineficazes. Ele enfatiza que muitos dos conteúdos são direcionados a pessoas idosas, que frequentemente compartilham suas preocupações nos comentários.
Ele ressalta a ironia de ter reativado seu canal com o lema “informação médica sem fake” e agora se vê lutando contra a desinformação que usa sua imagem. Hélio deseja que esses canais sejam removidos e que a fraude seja amplamente divulgada para proteger a saúde da população.
Prática pode ser considerada crime, dizem especialistas
Especialistas alertam que conteúdos desse tipo podem representar riscos à saúde, desencorajando tratamentos comprovados e promovendo condutas sem respaldo científico. O vice-presidente do Conselho Federal de Medicina destacou que a saúde é individualizada e que informações incorretas podem ser prejudiciais.
Embora a simples criação de vídeos não configure crime, a atuação como médico sem a devida autorização é considerada exercício irregular da medicina. Além disso, a falsa identidade pode ser uma violação legal quando se apresenta como médico sem informar que se trata de uma simulação.
Responsáveis por esses conteúdos podem enfrentar consequências legais, e as plataformas que hospedam esses vídeos também podem ser responsabilizadas se não agirem após notificações. A discussão sobre a responsabilidade civil das plataformas é um tema crescente, especialmente em relação à desinformação médica.
