Memória da Ditadura no Brasil: A Importância de Recordar e Elaborar para Evitar Repetições

Compartilhe essa Informação

A memória da ditadura militar ainda clama por reconhecimento e preservação.

Walter Benjamin afirma que a verdadeira redenção da humanidade depende da capacidade de enfrentar seu passado. Ignorar as feridas históricas não traz cura; ao contrário, é necessário confrontá-las para que a dor possa ser tratada. As cicatrizes permanecerão, mas a hemorragia pode ser estancada. A apropriação do passado deve ser feita com a consciência de que ele nos ilumina nos momentos de crise.

Atualmente, observa-se um esforço para apagar as memórias das violências de Estado durante a ditadura militar no Brasil, que perdurou de 1964 a 1985. Há aqueles que tentam minimizar as reivindicações das vítimas de tortura e assassinato, promovendo uma visão distorcida dessa parte sombria da história brasileira.

Um exemplo notável é a figura de um político que, em 2016, elogiou Brilhante Ustra, um torturador reconhecido pela Comissão Nacional da Verdade, e que posteriormente assumiu a presidência do Brasil. Este fato levanta questões sobre como a sociedade brasileira lida com sua memória histórica, especialmente no que tange à necessidade de recordar e elaborar os eventos para evitar repetições, conforme os ensinamentos de Freud.

Juiz de Fora, a cidade natal do autor, foi um ponto crucial na materialização do golpe de 1964, com tropas partindo de lá em direção ao Rio de Janeiro. A cidade também abrigou a 4ª Região Militar, onde ocorreram julgamentos, oitivas e sessões de tortura, tornando-se um símbolo da repressão estatal.

Iniciativas locais, como o projeto “Trilhas da Liberdade”, buscam combater o apagamento promovido por políticas públicas que têm negligenciado a relação da cidade com seu passado de violência de Estado. Murais de cerâmica, criados por estudantes da UFJF, ajudam a identificar prédios com suas histórias, mas a necessidade de ações mais robustas, como processos de patrimonialização, é evidente.

Importantes locais de memória, identificados por vítimas da ditadura, carecem de políticas públicas que os reconheçam adequadamente. Exemplos incluem a Penitenciária de Linhares e o 10º Regimento de Infantaria, que não recebem a atenção necessária, enquanto outros, como a Delegacia da Polícia Civil e o Quartel-General do Exército, foram tombados sem menção aos anos de chumbo.

Esses locais foram destacados em relatórios da Verdade como espaços de tortura e julgamento, mas a lembrança é frequentemente abafada por aqueles que não desejam ser associados ao golpe que celebraram, incluindo setores da mídia e políticos. No entanto, iniciativas corajosas, como a da pesquisadora Deborah Neves, estão transformando o Departamento de Operações de Informações em um sítio arqueológico, resgatando a memória de vítimas como o jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado em 1975.

Projetos como este trazem esperança para um tratamento mais efetivo da memória em relação ao período da ditadura. A realidade é que, no Brasil, muitos arquivos permanecem fechados e corpos desaparecidos. É fundamental que os locais de Juiz de Fora se tornem arquivos abertos e sítios de consciência, assim como o DOI-Codi em São Paulo, para que a verdade possa finalmente emergir.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *