Morte de José revela um homem vilipendiado e iludido, que possuía um profundo conhecimento oculto

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Falece José, um homem simples que carregava grandes histórias no coração.

José faleceu na madrugada de anteontem, surpreendendo a todos com a rapidez de sua partida. O coração parou de repente, e não houve tempo para que chegasse ao hospital da cidade. Conhecido no bairro por cuidar dos jardins, José era um homem simples, de poucos estudos, mas com um coração generoso.

Ele nunca aprendeu a ler, mas adorava ouvir histórias. Frequentemente batia à porta pedindo um novo “causo”. Uma de suas narrativas favoritas era a saga do burrinho pedrês, que o emocionava a ponto de limpar uma lágrima que ameaçava escorregar de seu olho. Ao descobrir o trágico destino de Augusto Matraga, exclamou, firme, que ele era realmente bravo. José partiu sem saber que tinha uma conexão com o renomado escritor João Guimarães Rosa, mas o levava em seu coração.

Certa vez, José chegou agitado, compartilhando um escândalo envolvendo a dona de uma loja e o melhor amigo de seu marido. Comentei que em toda cidade há histórias assim e lembrei de uma moradora ilustre que inspirou a personagem Capitu, conhecida por sua personalidade forte e por suas trocas de cartas com um dos maiores escritores do Brasil. Ao ouvir a história de Capitu e Bentinho, José refletiu que havia algo ali que se assemelhava aos dias atuais. Ele partiu sem saber que também conhecia Machado de Assis, mas o levava em seu coração.

Nos últimos tempos, José andava preocupado com as notícias do mundo. Ele frequentemente mencionava crimes, corrupção e doenças que vinham do Oriente, expressando sua inquietação com a situação do Brasil. “Cuidado, José”, eu dizia, enquanto ele mostrava a tela de seu celular, comentando sobre as vacinas e os males que poderiam surgir. Ele, sempre com seu cigarrinho de palha, refletia sobre a realidade que o cercava.

A relação de José com seu filho também se deteriorou quando este começou a se afastar, atraído por vídeos de um homem musculoso que falava apenas sobre dinheiro. O filho passou a frequentar uma igreja que mais parecia um espetáculo, cheia de luzes e promessas de riqueza. José, que sempre acreditou que Deus desejava que as pessoas fossem boas e justas, não se deixou enganar por essa nova visão materialista.

José partiu, muitas vezes subestimado e iludido, sem saber que carregava em seu coração a sabedoria de grandes autores como João, Machado, Clarice, Érico, Lygia, Graciliano, Rubem e Cora.

Faleceu José, e teve a sorte de não ver seu filho chorar apressadamente em seu velório, postando vídeos nas redes sociais e fazendo planos para as economias que sobraram após sua partida. Parte do que restou será destinado à igreja, enquanto outra parte será utilizada para a prosperidade pessoal, como se a vontade divina fosse apenas acumular riquezas. Amém.

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