Mulheres em Marrocos escalam montanhas para transformar neblina em água potável diante do avanço do deserto e desaparecimento das aldeias
Inovação no Marrocos transforma neblina em água potável para comunidades em dificuldade.
Na década de 1980, um experimento fortuito no Deserto do Atacama revelou o potencial da captação de água da neblina. Pesquisadores deixaram uma tela metálica exposta ao vento e, ao amanhecer, a encontraram coberta de gotículas em uma das regiões mais áridas do planeta. Essa descoberta simples inspirou soluções inovadoras para o abastecimento de água em áreas secas, como as aldeias de Aït Baâmrane, no sudoeste de Marrocos.
Com o avanço do deserto e a escassez de poços tradicionais, essas comunidades encontraram uma alternativa surpreendente: capturar a neblina das montanhas e convertê-la em água potável. Historicamente, as mulheres dessas aldeias passavam horas caminhando até poços distantes, carregando barris pesados, o que limitava suas atividades diárias e impedia muitas meninas de frequentarem a escola.
A transformação começou com a instalação de enormes redes de polímero nas encostas do Monte Boutmezguida, a mais de 1.200 metros de altitude. Essas redes aproveitam a umidade da neblina atlântica, que frequentemente atravessa a cordilheira do Anti-Atlas. As gotículas de água se acumulam na malha, condensam-se e fluem por gravidade para reservatórios conectados a tubulações.
O sistema é eficiente e não requer bombas complexas, utilizando apenas o vento e a umidade do ambiente para levar água diretamente às casas. Esse método é uma evolução significativa em relação aos experimentos passados em outros países, como Chile e Iémen, demonstrando avanços na engenharia de materiais.
Quando o sistema começou a operar, as comunidades ficaram surpresas ao ver água jorrando de torneiras em suas casas. A “água da neblina” rapidamente transformou o cotidiano local, permitindo que as mulheres deixassem de carregar água e que as meninas voltassem à escola. O projeto, liderado por uma ONG local, não apenas melhorou o acesso à água, mas também alterou as dinâmicas sociais, onde o transporte de água era uma tarefa exclusivamente feminina.
Embora a tecnologia tenha funcionado desde o início, convencer todos a utilizá-la apresentou desafios. Alguns moradores desconfiavam da água que nunca havia tocado o solo, associando-a a uma falta de minerais e vitalidade. Com o tempo, a resistência diminuiu à medida que as famílias perceberam que a água era segura e constante. Contudo, isso também trouxe à tona questões sociais, pois algumas mulheres sentiram que estavam perdendo seu papel central na família ao não serem mais responsáveis pela busca de água. O projeto, portanto, incorporou aspectos de alfabetização e gestão comunitária para apoiar essa transição.
Em maio de 2026, a ONU reconheceu o sistema marroquino como um exemplo inovador de adaptação às mudanças climáticas e à desertificação. O projeto ilustra que mesmo em regiões extremamente secas, é possível aproveitar recursos invisíveis para a sobrevivência. Entretanto, fica claro que não existe uma solução universal, pois a captação de neblina depende de condições geográficas e climáticas específicas. A experiência marroquina é um exemplo inspirador em um mundo que enfrenta crescente escassez de água.
