Nação insular inicia venda de cidadania por R$ 460 mil para financiar ações contra mudanças climáticas
Nauru vende cidadania para financiar adaptação às mudanças climáticas.
Enquanto muitos países ainda debatem sobre como financiar a adaptação às mudanças climáticas, Nauru tomou uma decisão ousada. O pequeno país do Pacífico começou a vender sua cidadania por cerca de US$ 90 mil, com um objetivo claro: arrecadar fundos para transferir a maior parte de sua população para áreas menos vulneráveis ao avanço do mar.
O conceito de passaportes dourados, que tradicionalmente atraem investimentos, foi reinventado por Nauru. O programa de cidadania oferece acesso sem visto ou com visto na chegada a mais de 85 destinos, incluindo locais como Singapura e Reino Unido. No entanto, o foco principal não é a mobilidade internacional, mas sim a arrecadação de recursos para garantir a sobrevivência da população diante das ameaças climáticas.
O problema de viver em uma ilha que já não tem para onde crescer
Com uma área de apenas 21 quilômetros quadrados e cerca de 12.500 habitantes, Nauru enfrenta um grave desafio. A exploração de fosfato durante o século 20 devastou cerca de 80% do interior da ilha, tornando-o inabitável e forçando a população a se concentrar na estreita faixa litorânea.
Essas áreas litorâneas são as mais expostas ao aumento do nível do mar, marés extremas e erosão costeira, fenômenos que avançam rapidamente na região do Pacífico. O governo planeja usar os recursos obtidos com a venda das cidadanias para financiar um projeto urbanístico ambicioso, que visa transferir cerca de 90% das moradias e infraestrutura para áreas mais elevadas.
A primeira fase do projeto está orçada em mais de US$ 60 milhões e prevê a construção de uma nova comunidade que seja menos vulnerável às inundações que ameaçam as localidades costeiras atuais.
O programa de cidadania não está disponível para qualquer interessado. Após escândalos anteriores relacionados à venda de passaportes, Nauru implementou rigorosos controles de verificação e checagem de antecedentes, com a possibilidade de revogar a cidadania em caso de descobertas de crimes graves.
Além disso, o passaporte não confere o direito de compra de terras na ilha, onde a propriedade é fortemente restrita.
Uma solução nascida da falta de alternativas
A iniciativa de Nauru também reflete uma preocupação maior. Países vulneráveis às mudanças climáticas têm denunciado a lentidão e a insuficiência da ajuda internacional para cobrir os custos de adaptação. Para um microestado com recursos limitados, a venda de cidadanias tornou-se uma forma de gerar receita sem depender totalmente do financiamento externo.
Se o programa alcançar as metas estabelecidas, ele pode representar cerca de um quinto das receitas públicas do país, oferecendo uma nova perspectiva financeira para Nauru.
Nauru não é o primeiro país a adotar passaportes por investimento, mas é um dos primeiros a utilizá-los abertamente como uma ferramenta para financiamento climático. Outros pequenos Estados observam atentamente os resultados deste experimento, que pode servir de modelo para futuras iniciativas.
A grande questão que permanece é se essa abordagem conseguirá equilibrar a segurança e a transparência necessária, enquanto uma nação vende um de seus ativos mais preciosos — sua cidadania — para garantir sua própria existência.
