O Destino do País que Prometeu R$ 170 mil por Dois Filhos
A Hungria enfrenta desafios em suas políticas de incentivo à natalidade.
Barbara Elek, uma assistente social de 33 anos, aguarda ansiosamente os resultados de sua terceira fertilização in vitro em Debrecen, na Hungria. Ela e seu marido, Levi, de 34 anos, estão sob pressão para conceber, pois um prazo se aproxima para que eles comprovem a gravidez e evitem penalidades financeiras em um empréstimo que contraíram.
O casal recebeu um empréstimo de 10 milhões de florins húngaros (aproximadamente US$ 33,4 mil) ao prometer ter dois filhos. No entanto, se não conseguirem comprovar uma gravidez até 1° de novembro, poderão enfrentar juros punitivos que variam de 1,5 a 3,5 milhões de florins (cerca de R$ 25,5 mil a R$ 59,5 mil), um valor que afirmam não ter condições de pagar.
Desde 2010, o governo húngaro, sob a liderança de Viktor Orbán, implementou políticas ambiciosas para aumentar a taxa de natalidade, que está abaixo do nível de reposição necessário para manter a população. Com uma taxa de natalidade de apenas 1,31 em 2025, a Hungria enfrenta um duplo desafio: a baixa taxa de natalidade e a emigração significativa.
As políticas do governo incluem subsídios e empréstimos para casais que se comprometerem a ter filhos. No entanto, apesar de um aumento inicial na taxa de natalidade, que subiu de 1,25 em 2010 para 1,59 em 2020, os números começaram a cair novamente. Em 2025, a taxa de natalidade estava apenas ligeiramente acima dos níveis anteriores à implementação das políticas.
Os especialistas em demografia apontam que, embora as políticas húngaras tenham incentivado alguns casais a ter filhos, elas não foram suficientes para reverter a tendência de declínio. As dificuldades financeiras e a alta inflação também têm impactado a capacidade das famílias de se expandirem. Por exemplo, a pressão sobre as mulheres para serem as principais cuidadoras da família tem levado a um aumento dos papéis de gênero tradicionais, o que pode desestimular a decisão de ter mais filhos.
Além disso, as políticas de incentivo têm sido mais eficazes para a classe média baixa em áreas rurais, enquanto os casais nas cidades, onde a fertilidade é mais baixa, não têm se beneficiado da mesma forma. A falta de serviços básicos adequados, como creches e assistência médica, também é uma preocupação crescente entre os jovens casais, que consideram esses fatores mais decisivos do que incentivos financeiros.
Em meio a esse cenário, a situação de Barbara e Levi é emblemática. Após receberem a notícia de que o embrião implantado não sobreviveu, o casal se vê preso em um sistema que prometeu apoio, mas que agora pode ameaçar sua estabilidade financeira e seus sonhos de formar uma família. A Hungria, ao tentar fortalecer a natalidade, enfrenta um dilema: como equilibrar políticas que incentivem a família sem ignorar as realidades sociais e econômicas que afetam a vida dos cidadãos.
